Washington Post denuncia ong ambientalista

O jornal norte-americano The Washington Post publicou uma série de matérias especiais, entre domingo e esta terça-feira, revelando números e documentos, com sérias críticas à entidade ambientalista The Nature Conservancy (TNC), internacionalmente conhecida.O levantamento de informações para as reportagens, assinadas pelos jornalistas Joe Stephens e David B. Ottaway, durou dois anos e incluiu pesquisa em documentos oficiais e agências de governo, entrevistas com funcionários e dirigentes da TNC e empresários doadores de recursos.O Post denuncia o mau uso do dinheiro arrecadado pela ong em nome da conservação ambiental, mas usado em benefício de seus associados ou dirigentes. Além disso, a TNC estaria próxima demais do mundo dos negócios, adotando estratégias econômicas prejudiciais à conservação. Segundo uma das denúncias, a ong recebeu uma área de 2.300 acres (cerca de 1.150 hectares) da Mobil Oil, no Texas, para preservar uma espécie de ave ameaçada de extinção (uma galinha-das-pradarias), porém passou a explorar gás natural, e a perfuração de poços teria causado o declínio da população da ave. Em outra reportagem, o jornal mostra que diversas áreas compradas pela TNC para conservação foram depois revendidas a associados, por menos da metade do preço, com restrições de uso, mas autorização para construção de casas com piscinas. Dirigentes da ong, incluindo o presidente, Steven J. McCormick, também teriam obtido empréstimos ou descontos em negócios, utilizando recursos de fundos de conservação.A TNC existe desde 1951 e atualmente está relacionada à preservação de cerca de 3,5 milhões de hectares, divididos em 1.400 santuários, em diversos países. Destes, pelo menos 1 milhão de hectares seriam de propriedade da ong. É o maior conjunto mundial de áreas privadas destinadas à conservação. Sua principal estratégia é adquirir terras em áreas ameaçadas, destinando-as a usos considerados compatíveis com a conservação.?Durante quase dois anos, o Washington Post trabalhou uma série de artigos sobre a TNC, que cooperou totalmente com o jornal, a despeito da natureza negativa e bitolada de suas questões. Ao invés de valorizar as enormes contribuições da Conservancy para preservar terras e águas preciosas na Terra, os artigos focam alguns poucos problemas isolados e não representativos do nosso largo espectro de conquistas?, diz a nota oficial da TNC, comentando as reportagens.Alegando que o retrato pintado pelo Post ?não é honesto?, a nota ainda considera esta ?representação errônea do trabalho feito pela Conservancy um desserviço a uma organização comprometida com uma agenda de conservação, com a maior integridade?. Parcerias brasileirasNo Brasil, a ong atua há 15 anos e tem parcerias com 8 ongs nacionais, em projetos que vão de seqüestro de carbono à proteção de áreas no Pantanal, na Caatinga, Amazônia e Mata Atlântica. Em geral, os projetos são executados pelas ongs brasileiras, com 95% dos recursos provenientes de doações feitas nos Estados Unidos, segundo Joe Keenan, diretor da TNC no Brasil. O montante de recursos anuais, dirigidos ao Brasil, está em torno de US$ 5 milhões.?Acredito que as denúncias do Post não terão repercussão sobre os projetos brasileiros. Não houve nenhuma menção ao Brasil nas reportagens. Quanto aos problemas apontados nos Estados Unidos, acredito que as matérias foram um pouco tendenciosas, o que não foi justo, mas não sou editor do jornal para dar palpite. A TNC é uma entidade grande, com muitos projetos de conservação e nem todos tiveram 100% de sucesso. Isso acontece, o importante é que estamos experimentando, tentando achar soluções?, argumenta Keenan.?Os projetos apoiados pela TNC no Brasil têm resultados concretos, em termos de conservação, mostrando uma relação das ongs nacionais importante e proveitosa?, complementa Clóvis Borges, diretor-executivo da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS), a parceira mais antiga da ong no Brasil (desde 1991). Borges afirma que as terras compradas no País com recursos da ong americana são administradas por entidades brasileiras e foram (ou estão sendo) transformadas em Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs), ou seja, integram oficialmente o sistema de unidades de conservação.A SPVS tem 3 projetos de seqüestro de carbono em parceria com a TNC, que envolvem a compra de terras na região de Guaraqueçaba, no Paraná. Nestas áreas estão sendo plantadas árvores nativas, há um programa de conservação de longo prazo (40 anos) e projetos de desenvolvimento sustentável para comunidades locais, que já resultaram, por exemplo, na multiplicação por 3 da renda obtida por bananicultores. Na mesma região, a Fundação O Boticário de Proteção à Natureza adquiriu a Reserva Natural de Salto Morato, com recursos da TNC, para proteger um remanescente de Mata Atlântica, dentro do programa ?Adote um Acre?, coordenado pela ong americana, em parceria com a General Motors.

Agencia Estado,

06 de maio de 2003 | 19h59

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