Workshop discute interações entre biodiversidade e pobreza

O primeiro de uma série de workshops previstos pelo Programa das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento (PNUD), sobre Biodiversidade e Pobreza, aconteceu ontem, na sede da Sociedade Zoológica de Londres (ZSL). Novas reuniões serão organizadas até agosto próximo, com o objetivo de gerar um documento para a Cúpula Mundial sobre o Desenvolvimento Sustentável (Rio+10), que acontece em Johanesburgo, na África do Sul, em agosto próximo."Se estamos verdadeiramente interessados em investir na preservação da biodiversidade, devemos discutir as ameaças à fauna e não há dúvida de que a pobreza é uma das principais", explicou Glyn Davies, da ZSL, um dos organizadores da reunião.Durante todo o dia, especialistas britânicos, africanos e americanos debateram as interações positivas e negativas da biodiversidade e da pobreza. Para eles, o fato dos maiores índices de pobreza e as mais altas taxas de biodiversidade se encontrarem entre os trópicos de Câncer e Capricórnio, na zona equatorial, deve merecer uma atenção especial das autoridades e organismos, nacionais e internacionais. Cerca de 231 milhões de pessoas, dos 116 países localizados nesta ampla região, ganham menos de um dólar por dia e, para sobreviver, dependem diretamente do que extraem da biodiversidade, seja na forma de energia, alimento ou produtos comerciais. A superexploração destes recursos não causa apenas a degradação ambiental, mas pode conduzir a um aumento insuportável da pobreza e a situações de conflito."Nosso objetivo é identificar iniciativas inovadoras, capazes de dar sustentabilidade ao uso da biodiversidade; estimular a documentação, troca e transferência de experiências entre comunidades e encorajar parcerias multisetoriais de aprendizado e reconhecimento dos resultados destas iniciativas", resume Sean Southey, gerente da Iniciativa Equatorial, uma parceria de organizações não-governamentais (ongs) e organismos internacionais, que visa influenciar a agenda ambiental mundial e políticas públicas nestas questões."A perda de biodiversidade pode vir de mudanças demográficas, políticas nacionais, governos ineficientes, padrões insustentáveis de consumo ou mudanças climáticas", prossegue Glyn Davies, da ZSL. "E tende a se agravar, de forma especial, em situações de crise econômica, quando comunidades inteiras voltam-se para a exploração de recursos naturais como forma de sobrevivência". Sem a adequada avaliação do valor real da biodiversidade, a tendência é desconsiderar ou minimizar sua importância econômica, sem sequer contabilizar os prejuízos ambientais, alguns dos quais podem ser definitivos, como a extinção das espécies.Para trabalhar de modo proativo, segundo Patrick Mulvany, do Grupo Internacional de Desenvolvimento Tecnológico (ITDG), do Canadá, é importante considerar aspectos pouco discutidos como a manutenção da biodiversidade agrícola, em contraposição à chamada agricultura globalizada. "A variedade e variabilidade das plantas e animais e microorganismos - a nível genético, de espécies e de ecossistemas - é necessária para sustentar as funções-chave das estruturas e processos agrícolas", diz. "Os ecossistemas garantem serviços ambientais importantes para a agricultura, sobretudo para reduzir sua vulnerabilidade". E ele exemplifica com a experiência de pequenos agricultores da América Central, atingidos por bruscas tempestades: aqueles que tinham sistemas de produção mais diversificados e integrados ao ambiente conseguiram se recuperar, enquanto os outros viram seus campos serem lavados pela intempérie"."A globalização leva à especialização e a simplificação dos agroecossistemas", acrescenta Izabella Koziel, do Instituto Internacional de Meio Ambiente e Desenvolvimento (IIED). "É preciso promover o retorno a sistemas diversificados, agregando o componente sustentabilidade ao uso tradicional da biodiversidade". Segundo ela, isso seria possível através de feiras comunitárias de sementes, criação de viveiros coletivos, escolas agrícolas, extensão rural e de um turismo rural especialmente voltado para a biodiversidade agrícola. Este conceito, a seu ver, ainda deveria ser trabalhado no âmbito da Organização Mundial de Comércio (OMC) e da Convenção de Biodiversidade e na regulamentação internacional do mercado de sementes (Tratado das Sementes).

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