REUTERS / CDC / Cynthia Goldsmith
REUTERS / CDC / Cynthia Goldsmith

Zika é detectado em macacos no Ceará

É a 1ª vez que animais infectados são encontrados fora da África; erradicar doença pode ser ainda mais difícil, dizem pesquisadores

Fabiana Cambricoli, O Estado de S. Paulo

22 Abril 2016 | 05h00

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) encontraram, pela primeira vez fora do continente africano, macacos infectados pelo vírus zika. A descoberta no Brasil indica que, por ser capaz de contaminar outros hospedeiros além dos humanos, a doença se espalha com mais facilidade e pode ser mais difícil de ser contida do que os especialistas imaginavam.

“Esse é um achado que nos deixou muito preocupados porque mostra que o zika veio para ficar. Assim como no caso da febre amarela, o vírus tem um ciclo não só em humanos, mas também em animais silvestres, que podem tornar-se um reservatório. É por isso que, no caso da febre amarela, mesmo com a vacina, a gente nunca conseguiu erradicar o vírus, porque ele fica circulando entre os primatas. Isso não acontece com a dengue, por exemplo”, explica Edison Luiz Durigon, professor titular do departamento de microbiologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e um dos coordenadores do estudo, cujos resultados preliminares foram publicados no periódico bioRxiv.

Os macacos infectados pelo zika foram encontrados em diferentes regiões do Ceará entre os meses de julho e novembro do ano passado. Cientistas do ICB-USP e do Instituto Pasteur estavam no local capturando saguis e macacos-prego para um estudo sobre a raiva. “Resolvemos testá-los também para o zika e, para nossa surpresa, 29% das amostras deram positivas, todas elas de macacos capturados em áreas onde há notificação de zika e ocorrência de microcefalia”, diz o pesquisador, um dos integrantes da Rede Zika, força-tarefa de cientistas paulistas criada no ano passado, com auxílio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), para estudar o vírus.

Método. Para testar os macacos, Durigon e os colegas utilizaram a técnica PCR em tempo real, que detecta a presença do vírus no organismo do animal. Após passarem pelo exame, os macacos tiveram um microchip implantado e foram devolvidos ao hábitat natural.

Na pesquisa, foram capturados 15 saguis e 9 macacos-prego, todos eles com hábitos domésticos ou que viviam próximos aos humanos. Dos 24 animais que passaram pelo exame, sete estavam com zika: quatro saguis e três macacos-prego. Foram encontrados animais infectados tanto na região costeira do Ceará quanto nas áreas de caatinga e de floresta.

“Estes não são macacos completamente silvestres, eles costumam ir às casas das pessoas para buscar comida e ali podem ser contaminados, voltando para o ambiente selvagem levando o vírus e, inclusive, infectando outros tipos de Aedes. Por enquanto, é o humano que está provocando a infecção do macaco, mas daqui a pouco pode ser o contrário”, afirma o professor do ICB-USP.

Dengue x zika. O resultado encontrado pelos pesquisadores brasileiros pode apontar para um dos motivos de o zika ter se disseminado tão rápido pelas Américas. Em menos de dois anos, a doença já foi identificada em 35 países do continente, enquanto a dengue levou décadas para se espalhar na mesma amplitude.

A dengue, no entanto, é incapaz de infectar macacos e, portanto, não tem o chamado reservatório em animais silvestres.

“O que acontece com os vírus é que, para eles se multiplicarem em um organismo, precisam que as células de um indivíduo tenham um receptor. Eles só conseguem infectar as células que são permissivas a eles. Mesmo se um mosquito positivo para a dengue picar o macaco, não consegue infectá-lo porque não há esse receptor nas células. Já no caso da zika, descobrimos que sim”, diz Durigon.

Embora a infecção por zika já tivesse sido detectada em macacos da África, os cientistas se surpreenderam porque os primatas do novo e velho mundo, como são classificados, têm estruturas genéticas e suscetibilidade a doenças diferentes. Não havia, portanto, a obrigatoriedade de um primata do continente americano ser suscetível à infecção por zika. 

Com o achado, os pesquisadores pretendem retornar ao Ceará em meados de maio para fazer exames em mais macacos e tentar recapturar alguns dos animais já testados para que eles sejam estudados de forma mais aprofundada.

3 PERGUNTAS PARA... Edison Luiz Durigon, Um dos coordenadores do estudo

1. A possibilidade de o zika vírus infectar macacos pode ter facilitado a disseminação da doença pelas Américas no último ano?

Com certeza. Ao contrário da dengue, que não tinha reservatório em outros animais e se espalhou aos poucos, o zika veio com mais força. Essa amplitude de reservatórios não só em humanos provavelmente fez com que ela conseguisse se estabelecer mais rapidamente no País.

2. Os macacos infectados pelo zika também desenvolvem a doença, com sintomas, assim como ocorre com os humanos?

Ainda não sabemos. Isso ainda terá de ser estudado.

3. Mas o fato de macacos serem contaminados pelo vírus pode fazer desses animais bons modelos para entender como o vírus afeta o sistema nervoso e causa a microcefalia, por exemplo?

Isso é uma possibilidade grande. Já tínhamos experimentos em laboratório mostrando que o macaco podia se infectar com o vírus zika. Agora que sabemos que o animal pode se contaminar também de forma natural, ele provavelmente vai ser um excelente modelo para um estudo, muito mais próximo do humano do que camundongos, por exemplo. 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.