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Zika pode causar microcefalia

Seis meses de cautela, hesitação e coleta de dados. Mas os cientistas finalmente concluíram que há evidências suficientes para afirmar que o vírus zika pode causar microcefalia e outras más-formações em fetos. Mais interessante que a conclusão é a lista do que ainda não sabemos. 

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

07 Maio 2016 | 03h00

A análise foi baseada em duas listas de condições que precisam ser cumpridas para caracterizar uma relação de causa e efeito. Para cada uma dessas condições os cientistas avaliaram se os dados já coletados são suficientes para afirmar que o zika causa microcefalia.

A primeira lista foi proposta por Thomas Shepard, em 1994. Ela contém sete critérios, e é usada para demonstrar a teratogenicidade (capacidade de provocar más-formações congênitas) de vírus e substâncias químicas. Dos sete critérios, quatro estão presentes no caso do vírus zika. Um foi confirmado parcialmente, um não foi confirmado e um somente se aplica no caso de compostos químicos. 

Primeiro, os cientistas concluíram que há evidências suficientes para afirmar que o zika infectou as mães de crianças microcéfalas durante a gravidez. Segundo, que existe uma caracterização clara das peculiaridades deste tipo de microcefalia, que a separa de outros tipos, como, por exemplo, as pregas no couro cabeludo das crianças afetadas. Terceiro, que foram identificados eventos raros de contaminação associados a sintomas também raros – neste caso, o fato de uma mulher que passou somente uma semana no Brasil e, ao voltar ao exterior, foi constatado que seu filho apresentava microcefalia. Aí o importante é a baixa probabilidade desses dois eventos não estarem relacionados de forma causal. O quarto critério é que existe plausibilidade biológica. Essa plausibilidade biológica se caracteriza pela detecção do vírus no cérebro de crianças afetadas (se o vírus só afetasse a unha do pé, por exemplo, não existiria plausibilidade biológica, pois fica difícil explicar como sua presença no pé pode afetar o desenvolvimento do cérebro).

Essas são as condições cumpridas. As duas ainda não cumpridas são: a existência de dois estudos epidemiológicos bem planejados que comprovem a relação causal entre o vírus e a microcefalia (o primeiro estudo está sendo feito na Colômbia) e a inexistência em um modelo animal (rato ou macacos). Esta condição somente será cumprida quando for possível infectar um animal com o vírus e demonstrar microcefalia nos filhotes.

A segunda lista, os critérios de Bradford Hill, foi proposta em 1956, com o objetivo de separar associação e causalidade. Já escrevi sobre esses critérios aqui (Zika: Associação não é Causa, 5 de dezembro de 2015). Nessa lista, dos nove critérios (força da associação, consistência, especificidade, temporalidade, gradiente biológico, plausibilidade, coerência, modelo animal e analogia), somente o critério de modelo animal não foi considerado satisfeito.

Assim, com base na análise dessas duas listas de critérios, e considerando que a maioria dos critérios foi satisfeita, os cientistas estão seguros de que o vírus zika pode causar microcefalia e outras más-formações congênitas.

O mais interessante nesse artigo são os três aspectos que os cientistas ainda consideram desconhecidos. O primeiro é a diversidade dos possíveis efeitos do zika. Ou seja, o que mais ele pode causar, além da microcefalia (sabemos, por exemplo, que ele pode afetar a retina). O segundo, que também é o que mais importa para as mulheres grávidas, é o risco de uma mãe infectada pelo vírus ter um filho afetado. Esse risco pode ser alto (se, por exemplo, 80% das mães infectadas tiverem filhos afetados) ou muito baixo (se somente 0,1% das mães infectadas tiverem filhos afetados). Esse aspecto também já foi tratado aqui (Microcefalia: Falta o Denominador, 13 de fevereiro de 2016). Esse número ainda é desconhecido e depende de estudos epidemiológicos bem desenhados, um dos itens faltantes na primeira lista. E, finalmente, o terceiro aspecto ainda desconhecido são os fatores que influenciam o aparecimento das más-formações. Como o vírus zika pode causar microcefalia, mas seguramente não causa microcefalia em todos os casos, é necessário saber se existem fatores genéticos ou ambientais que influenciam o aparecimento das más-formações.

Em suma, agora sabemos que o zika pode causar microcefalia, mas ainda não sabemos em qual porcentagem das mães infectadas os filhos serão afetados. Tampouco sabemos quais fatores aumentam ou diminuem as chances de os filhos serem afetados. A ciência progride, mas muitas vezes em velocidade muito menor do que gostaríamos.

MAIS INFORMAÇÕES: ZIKA VÍRUS AND BIRTH DEFECTS – REVIEWING THE EVIDENCE FOR CAUSALITY. N ENGL J MED APRIL 13TH 2016

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