Brasil ganha novas listas de espécies ameaçadas

Brasil ganha novas listas de espécies ameaçadas

Veja quem já foi salvo da extinção e quem ainda corre risco de desaparecer da biodiversidade brasileira no ano que vai nascer

Herton Escobar

29 Dezembro 2014 | 08h00

Arara_Azul

Arara-azul-grande, uma das espécies que saiu da lista. Foto: Ana Cotta, via Flickr/CC

A notícia passou quase que despercebida nos dias que antecederam o Natal, mas aconteceu: No dia 17 de dezembro, o Brasil ganhou suas primeiras “listas vermelhas” oficiais de espécies ameaçadas de extinção. Um presente de fim de ano incômodo, porém indispensável para a elaboração de políticas eficazes de conservação da biodiversidade nacional. E que trouxe embutido no pacote vermelho algumas boas noticias, acredite se quiser.

Foram publicadas, simultaneamente, as listas de fauna e flora. Digo que foram as “primeiras” porque, apesar de outras terem sido publicadas antes (em 2003 e 2008, respectivamente), esta é a primeira vez que quase todas as espécies conhecidas do Brasil foram avaliadas de uma só vez (100% dos vertebrados terrestres e aquáticos, mais um grande número de plantas e invertebrados). As listas anteriores eram baseadas apenas em amostragens de espécies — ou seja, não eram representativas da biodiversidade brasileira como um todo, mas apenas daquelas determinadas espécies que foram selecionadas para avaliação. Eram um retrato parcial, enquanto que estas novas listas são um retrato completo (ou o mais completo possível) do status de conservação das espécies brasileiras.

Entre os animais terrestres, para se ter uma ideia, o número de espécies avaliadas aumentou de 816, na lista de 2003, para 6.840, na lista atual, incluindo 100% das espécies conhecidas de mamíferos, aves, répteis e anfíbios, e cerca de 3% das espécies de invertebrados — o que parece pouco, mas, ainda assim, são 2.423 espécies (a dificuldade com os insetos é que eles são tão diversos que se torna praticamente impossível avaliar todas as espécies simultaneamente).

As novas listas podem ser acessadas aqui: http://goo.gl/YgR1aW

O resumo da ópera é o seguinte:

O Brasil tem 3.286 espécies ameaçadas de fauna e flora, sendo:

698 espécies ameaçadas de animais terrestres (incluindo 165 na categoria mais grave, “criticamente em perigo”, com altíssimo risco de extinção)

475 espécies ameaçadas de animais aquáticos e marinhos (153 delas “criticamente em perigo”)

2.113 espécies ameaçadas de plantas (467 delas “criticamente em perigo”)

Quanto esses números aumentaram ou diminuíram em relação às listas anteriores? É tentador fazer essa comparação, mas eu prefiro não perder tempo com isso. As listas são tão diferentes, tanto em termos estatísticos quanto metodológicos, que seria como comparar laranjas com maçãs. São produtos distintos no tempo e no espaço, de modo que há pouco valor em comparar as estatísticas de um e de outro.

O que vale a pena, sim, é comparar o que aconteceu com o status de conservação de espécies individuais que figuram nas duas listas. Quem melhorou e quem piorou nos últimos dez anos? É aí que surgem as boas e as más notícias dessa nova relação.

Boas notícias:

259 espécies que figuravam nas listas anteriores deixaram de ser classificadas como ameaçadas (ou seja, saíram da lista vermelha), sendo 88 de animais terrestres, 82 de animais aquáticos e 89 de plantas.

Dois bons exemplos são a arara-azul-grande e a baleia jubarte (conforme eu já havia noticiado aqui no blog, em primeira mão, em junho de 2013, e novamente, oficialmente, em maio de 2014).

Outras espécies melhoraram de situação na lista, apesar de ainda estarem ameaçadas, como o mico-leão-preto (que passou de “criticamente em perigo” para “vulnerável”) e o peixe-boi-marinho (que passou de “criticamente em perigo” para “em perigo”).

Estes são exemplos de espécies que foram beneficiadas por medidas efetivas de conservação, tanto do poder público quanto da sociedade, por meio de organizações não-governamentais. Na maioria dos casos, porém, as espécies que se salvaram da lista foram retiradas porque se descobriu que elas não estavam tão ameaçadas quanto se pensava, não por conta de algum esforço efetivo de conservação.

Más notícias:

720 espécies de animais que não figuravam nas listas anteriores (porque não eram consideradas ameaçadas ou nem chegaram a ser avaliadas) entraram para a nova lista vermelha como ameaçadas de extinção; sendo 395 terrestres e 325 aquáticas.

Budião-azul, um dos peixes que entrou na lista de ameaçados. Foto: Jonne Roriz/Estadão

Budião-azul, um dos peixes que entrou na lista de ameaçados. Foto: Jonne Roriz/Estadão

Há males que vêm para o bem

No caso das espécies aquáticas, a inclusão na lista pode ser considerada até uma boa notícia, pois é a única maneira de se conferir a elas um grau mais efetivo proteção. Muitas dessas “novas” espécies (79, para ser mais exato) são peixes de interesse comercial, explorados pela pesca, que já estavam em situação preocupante há algum tempo, mas careciam de proteção efetiva. Entre eles, várias espécies de tubarões, como os martelos e o galha-branca.

Outros beneficiados dos mares incluem o grande mero (cuja pesca já é proibida há alguns anos por instrução normativa, mas a espécie não era oficialmente classificada como ameaçada até agora) e os pequenos cavalos-marinhos, caçados para serem usados como ornamento ou souvenir. Quem também entrou para a lista foi o peixe-papagaio-azul, ou budião-azul (Scarus trispinosus), muito pescado e consumido na região dos Abrolhos, no sul da Bahia (para saber mais, leia a reportagem especial: Com um arpão na mão e uma mangueira entre os dentes)

Em casos como esses, quando já se está a beira do abismo, ser listado como espécie ameaçada é motivo de comemoração. A inclusão na lista vermelha implica em restrições à pesca, caça ou derrubada dessas espécies espécie, podendo chegar até a uma proibição total, no caso das espécies mais ameaçadas.

Sempre polêmicas

Sem dúvida que os pormenores da lista podem ser questionados. Essas listas não são perfeitas, e nunca há um consenso absoluto sobre elas — seja sobre espécies que ficaram de fora, que não deveriam ter saído ou que foram classificadas na categoria errada, segundo a opinião de um ou outro especialista. Mas já passava da hora de o Brasil ter uma lista vermelha “de verdade” para guiar suas políticas de conservação da biodiversidade. Assim como as listas internacionais da IUCN, estas também, certamente, serão revisadas, refinadas e melhoradas ao longo dos próximos anos, num trabalho contínuo de avaliação e revalidação.