Cientistas brasileiros iniciam travessia pioneira na Antártida

Cientistas brasileiros iniciam travessia pioneira na Antártida

Missão é coletar amostras do manto de gelo para estudos climáticos, em uma área nunca antes pesquisada do continente

Herton Escobar

05 Janeiro 2015 | 17h55

A equipe da travessia. Crédito: UFRGS/Divulgação

A equipe da travessia, com suas caminhonetes adaptadas. Crédito: UFRGS/Divulgação

Depois de sobreviver a um 2014 escaldante (muito provavelmente o ano mais quente já registrado pelo homem, segundo as previsões da Organização Mundial de Meteorologia – WMO), um pequeno grupo de pesquisadores brasileiros vai começar 2015 desbravando uma das regiões mais geladas do planeta. A equipe de quatro cientistas, liderada pelo glaciologista Jefferson Simões, deu início hoje à primeira travessia científica brasileira no interior da Antártida, partindo de um acampamento privado na base da geleira Union até o topo de uma montanha, chamada Monte Johns, a 1,2 mil km de distância, onde está prevista a instalação de uma nova estação remota de pesquisa, controlada via satélite.

A expedição deve durar até o fim do mês e o trajeto será todo percorrido com caminhonetes especialmente adaptadas (com três eixos e pneus largos) para dirigir sobre o manto de gelo da Antártida. Trata-se de um trajeto pioneiro, nunca antes percorrido por outros pesquisadores ou exploradores, segundo as informações divulgadas pelo Centro Polar e Climático da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) — do qual Simões é o diretor –, o que torna a trilha especialmente perigosa. O maior risco são as fendas (rachaduras no manto de gelo, possivelmente grandes o suficiente para engolir uma caminhonete inteira) que podem estar escondidas sob a neve, indetectáveis a olho nu ou por imagens de satélite.

O objetivo científico da expedição é coletar amostras de gelo para pesquisas climáticas, baseadas na composição química dos gases atmosféricos que ficam aprisionados nele. “Este ano, faremos um levantamento expedito para entendermos como algumas variáveis ambientais (temperatura, precipitação, concentrações de alguns compostos químicos) estão distribuídos na superfície do gelo antártico”, explica Simões. “Isso é importante para termos a referência do presente e aí fazermos inferências sobre mudanças ambientais naturais ou causadas pela atividade humana. Ou seja, determinar qual é o sinal antrópico (humano) na química da neve antártica.”

Pesquisador perfura o gelo para coleta de um testumunho (amostra cilíndrica), em uma expedição anterior na Antártida. Foto: UFRGS/INCT da Criosfera

Pesquisador perfura o gelo para coleta de um testumunho (amostra cilíndrica), em uma expedição anterior na Antártida. Foto: UFRGS/INCT da Criosfera

As amostras são cilindros de neve e gelo extraídos do manto polar, conhecidos na glaciologia como “testemunhos de gelo”. Segundo Simões, com os testemunhos coletado durante a travessia será possível estudar a composição química da atmosfera sobre aquela região da Antártida nos últimos 50 anos.

“Será uma missão muito diferente do que estamos acostumados, com novos riscos assumidos, pois é uma das áreas menos conhecidas da Antártica e as poucas informações existentes são de imagens de satélites. Assim, o mapeamento das áreas de risco é nossa constante preocupação”, escreveu Simões, em um relato enviado por email de Punta Arenas (Chile), no primeiro dia do ano, pouco antes do embarque de avião rumo ao continente gelado. “Durante três semanas, atravessaremos uma das paisagens mais isoladas desta Terra, o interior de gelo do manto de gelo antártico. Milhões de quilômetros quadrados de um deserto frio, formado pela precipitação de neve, resultando em uma massa de gelo bem maior do que o Brasil (são 13,7 milhões de km² com espessura média de 2 km de gelo), arrastando-se vagarosamente em direção ao mar, ali e aqui enormes fraturas que podem engolir tratores inteiros.”

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Infográfico: Herton Escobar, com base em imagens da UFRGS

Infográfico: Herton Escobar, com base em imagens divulgadas pela UFRGS

Surpresa: calor “escaldante” de -5 C

Ao desembarcar na Antártida, surpresa: a temperatura ambiente era de apenas 5 graus negativos, o que Simões descreveu como uma “temperatura escaldante” para a região, mesmo no verão.

“A equipe passou o dia preparando a carga e discutindo a segurança da rota. Depois preparamos veículos para o início da missão amanhã (05 de janeiro)”, contou Simões, em seu relato mais recente, escrito no domingo, porém só recebido hoje pela equipe na UFRGS.

A primeira pernada da expedição serão uma travessia direta, de 520 km, realizada em 24 horas, até o local onde está instalado o módulo brasileiro de pesquisa Criosfera 1, a 84 graus de latitude Sul. Nesse trecho, segundo Simões, o terreno já está aplainado pelo fluxo constante de tratores polares. “Só então entraremos em terreno desconhecido e iniciaremos nossas amostragens cientificas”, completou.

A segunda pernada será de 650 km, do Criosfera 1 até o topo do Monte Johns, com 2.125 metros de altitude, onde numa expedição futura (prevista para o verão de 2016) deverá ser instalado o módulo Criosfera 2. Depois disso, a equipe ainda avançará mais 100 km, até a geleira Pine, para depois retornar ao Monte Johns e fazer uma bifurcação de volta à pista de pouso da geleira Union, totalizando 1,4 mil km de percurso (mapa acima). A expedição está prevista para terminar no dia 31 de janeiro.

O Criosfera 1, primeiro módulo de pesquisa remota do Brasil na Antártida, em 2013. Foto: Heitor Evangelista

O Criosfera 1, primeiro módulo de pesquisa remota do Brasil na Antártida, em 2013. Foto: Heitor Evangelista

A equipe completa é formada de sete pessoas: Jefferson Cardia Simões, Luciano Marquetto, Filipe Gaudie Ley Lindau e Ronaldo Torma Bernardo (pesquisadores brasileiros da UFRGS); Hlynur Sigurthsoon e Eduard Williamsson (motoristas islandeses da empresa Arctic Trucks); e Tom Weston (montanhista britânico, da Antarctic Logistics and Expeditions – ALE).

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