Dimas Covas será novo diretor do Butantan; pesquisadores planejam paralisação

Dimas Covas será novo diretor do Butantan; pesquisadores planejam paralisação

Grupo de cientistas e funcionários protesta contra o que considera ser "interferência política" no instituto. Ex-diretor Jorge Kalil foi acusado de má gestão e irregularidades.

Herton Escobar

22 Fevereiro 2017 | 19h38

O hematologista Dimas Tadeu Covas, da Universidade de São Paulo (USP), será o novo diretor do Instituto Butantan, após o afastamento do imunologista Jorge Kalil, que comandava a instituição desde 2011. O anúncio foi feito hoje pela Secretaria de Estado da Saúde — pasta da administração pública à qual o instituto é vinculado.

Professor titular da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP e diretor da Fundação Hemocentro de Ribeirão Preto, Covas ostenta um currículo extenso como pesquisador e administrador. Foi aluno do atual reitor da USP, Marco Antonio Zago, desenvolvendo pesquisas nas áreas de hematologia, células-tronco e terapia celular, entre outras. Tem boa reputação na comunidade científica, visto como pesquisador e administrador competente.

Segundo nota divulgada à imprensa pela secretaria, Covas “terá como missão principal reorganizar a gestão do Instituto Butantan, bem como as áreas de pesquisas científicas e desenvolvimento de imunobiológicos da instituição”.

O sobrenome Covas é uma coincidência — Dimas não tem parentesco com o ex-governador Mario Covas, do PSDB (falecido em 2001). Segundo fontes ouvidas pela reportagem, porém, ele teria forte ligação com o partido do governo — assim como o economista André Franco Montoro Filho, ex-presidente da Fundação Butantan, cujas acusações de má gestão e irregularidades levaram ao afastamento de Kalil. As denúncias foram reveladas pelo jornal Folha de S. Paulo e pela rede Globo.


Kalil nega que tenha cometido qualquer irregularidade. Em entrevista ao Estado, ele classificou as acusações como “ridículas” e atribuiu seu afastamento a uma disputa interna de poder e “inveja” do prestígio que o Butantan vinha conquistando sob sua gestão.

PROTESTO

Pesquisadores e funcionários do Butantan planejam fazer uma paralisação amanhã, em protesto à exoneração de Kalil. Também haverá uma manifestação na porta do instituto.

“A paralisação é um ato contra as intervenções políticas do governo na gestão e na continuidade dos projetos em andamento no Instituto Butantan”, diz um manifesto preparado pelo grupo, ao final de uma assembleia que lotou o auditório do Museu Biológico do Butantan, hoje à tarde.

“A comunidade do Instituto Butantan repudia a exoneração do cargo de diretor do Instituto, Prof. Dr. Jorge Kalil. Este ato baseado em factoides já esclarecidos, mas covardemente divulgados fora de contexto por alguns veículos de imprensa implicará certamente na estagnação ou, ainda, retrocesso de muitas das conquistas alcançadas desde 2011 na gestão do Dr. Kalil em todas as áreas em que o Instituto atua, sobretudo nas questões relativas à investigação e produção de vacinas”, diz o documento.

Prédio histórico do Instituto Butantan. Foto: Rafael Arbex/Estadão

Prédio histórico do Instituto Butantan. Foto: Rafael Arbex/Estadão