DNA reforça hipótese de invasão do peixe-leão no Brasil

DNA reforça hipótese de invasão do peixe-leão no Brasil

Análises genéticas do único animal coletado até agora no Brasil, em Arraial do Cabo (RJ), mostram que ele é relacionado à população invasora do Caribe, reforçando a possibilidade de que a espécie esteja se espalhando pela costa brasileira. Até agora, porém, não há evidências da sua presença em qualquer outra região, e a hipótese de uma soltura isolada permanece válida.

Herton Escobar

22 Abril 2015 | 19h42

Peixe-leão capturado em Arraial do Cabo em 2004 tinha 25 cm. Foto: MBL e MCB / Ferreira et al./http://goo.gl/EEfQk4

Peixe-leão capturado em Arraial do Cabo em 2014 tinha 25 cm. Foto: MBL e MCB / Ferreira et al./http://goo.gl/EEfQk4

 

O peixe-leão encontrado em Arraial do Cabo (RJ) no ano passado é oriundo do Caribe, segundo uma análise genética publicada por cientistas brasileiros na revista PLOS One. O resultado reforça a hipótese de que a espécie tenha cruzado a barreira de água doce do Amazonas e invadido a costa brasileira, como já fez na costa leste dos Estados Unidos e no Golfo do México. Não está descartada, porém, a possibilidade de que ele represente um indivíduo isolado, solto propositalmente ou acidentalmente na região.

“Tudo indica que o peixe-leão está começando a invadir o Brasil”, disse ao Estado o pesquisador Carlos Eduardo Ferreira, da Universidade Federal Fluminense (UFF), um dos autores principais do trabalho.

Para saber mais sobre o peixe-leão, sua origem e o risco que ele oferece para o meio ambiente marinho, clique aqui: http://goo.gl/7AaMji

O peixe foi detectado por mergulhadores em 10 de maio de 2014, ao largo de um costão rochoso de Arraial do Cabo, um dos principais destinos turísticos de mergulho no Brasil. Três dias depois, foi capturado por pesquisadores e levado para um laboratório da UFF para identificação e análises. O resultado dessas análises é o que está sendo publicado agora, um ano depois.

Os cientistas sequenciaram dois genes do DNA mitocondrial do bicho, que mostram que ele é descendente da população de peixes-leões invasores do Caribe, e não da população de peixes-leões nativos do Indo-Pacífico. Com isso, descarta-se a hipótese de que ele seja um peixe de aquário importado da Ásia. Mas o mistério sobre sua origem caribenha não está resolvido.

Nossa opinião é que o peixe-leão detectado aqui chegou ao Brasil por meio da dispersão natural de larvas desde o Caribe” –  Autores do estudo na PLOS One

A grande pergunta que continua no ar é: Como esse peixe-leão fez a viagem de 5,5 mil km desde o Caribe até o Rio de Janeiro?

Há duas hipóteses: 1) Ele é um peixe coletado no Caribe, trazido para o Brasil e solto em Arraial do Cabo; 2) Ele chegou a Arraial do Cabo via dispersão natural da espécie ao longo da costa brasileira — o que significa dizer que o Brasil já foi invadido e há muitos outros peixes-leões espalhados neste momento por aí, esperando para serem descobertos.

Os pesquisadores, para infelicidade da biodiversidade marinha brasileira, acreditam que a hipótese correta seja a número 2.

Segundo Ferreira — que, por coincidência, mora em Arraial do Cabo —, a maior parte dos peixes-leões comercializados pela indústria de pets vem do Indo-Pacífico. Além disso, há poucos aquaristas e lojas de aquário na região de Arraial, o que reduz a probabilidade de que o peixe tenha sido solto por alguém.

“Nossa opinião é que o peixe-leão detectado aqui chegou ao Brasil por meio da dispersão natural de larvas desde o Caribe”, escrevem os pesquisadores na PLOS One. O autor de correspondência do trabalho é Luiz Rocha, da Universidade da Califórnia Santa Cruz e da Academia de Ciências da Califórnia. A lista completa de autores pode ser vista aqui: http://goo.gl/7gtyhi

Peixe-leão capturado em Arraial do Cabo em 2014. Foto: MBL e MCB / Ferreira et al./http://goo.gl/EEfQk4

Peixe-leão capturado em Arraial do Cabo em 2014. Foto: MBL e MCB / Ferreira et al./http://goo.gl/EEfQk4

A grande muralha do Amazonas

Para essa hipótese estar correta, a espécie teria de ter vencido dois grandes obstáculos: 1) A Corrente Norte do Brasil, que flui na direção do Caribe (na contra-mão do peixe-leão); e 2) A chamada “barreira do Amazonas”, uma gigantesca pluma de água doce e sedimentos que se forma no oceano entre as fozes do Rio Orinoco, na Venezuela, e Amazonas, no Brasil.

Juntas, essas duas barreiras formam uma espécie de muralha aquática, que separa claramente a biodiversidade marinha do Brasil e do Caribe.

Há anos discute-se na comunidade científica se o peixe-leão seria capaz de transpor essa muralha, por causa de sua enorme resiliência e versatilidade ecológica (ele pode sobreviver em uma grande variedade de ecossistemas, incluindo águas salobras e de grande profundidade). Em 2013, os mesmos autores deste trabalho publicaram um artigo na revista Marine Ecology Progress Series dizendo que sim.

“Mesmo com essas duas barreiras (a corrente contrária e a pluma de água doce), de vez em quando alguém passa”, afirma Ferreira. A pluma do Orinoco-Amazonas, segundo ele, é uma barreira “porosa”, principalmente em períodos de deglaciação, com nível do mar elevado. “A barreira fica só na superfície”, diz. “Há um corredor de água salgada, mais profunda, pela qual o peixe-leão poderia passar.”

Cientistas descobriram recentemente que há recifes de profundidade nessas águas abaixo da pluma, que poderiam servir de abrigo para o peixe-leão na travessia.

Mapa mostrando onde o peixe-leão foi coletado, em Arraial do Cabo. Crédito: Ferreira et at (PLOS One 2015); com imagem de satélite da NOAA

Mapa mostrando onde o peixe-leão foi coletado, em Arraial do Cabo, assim como a direção da corrente no norte do Brasil e a extensão da pluma do Orinoco-Amazonas (AOP). Crédito: Ferreira et at (PLOS One 2015); com imagem de satélite da NOAA

Se a invasão começou, onde estão os outros?

A principal evidência contrária a essa hipótese é que nenhum outro peixe-leão foi detectado até agora em qualquer outro lugar do Brasil. Para chegar até Arraial do Cabo via dispersão natural, a espécie teria de ter se estabelecido primeiro no Nordeste, e migrado gradualmente em direção ao sul. Por que, então, nenhum peixe-leão foi encontrado até agora nessas outras regiões?

Ferreira acredita que eles possam estar “escondidos” em águas mais profundas no Nordeste, e que os primeiros avistamentos estão acontecendo em Arraial do Cabo por causa do grande fluxo de mergulhadores na cidade. “Estamos vendo primeiro aqui porque há muito mais olhos debaixo d’água, talvez”, opina o pesquisador.

Um outro peixe-leão adulto foi visto em Arraial do Cabo no início de março. Mergulhadores filmaram o bicho e postaram vídeos e fotos na internet, mas o animal não foi capturado nem foi visto novamente. Ferreira disse que foi ao local no dia seguinte, mas o peixe não estava mais lá — o que é estranho, pois os peixes-leões não costumam se movimentar muito. Trata-se, portanto, de uma observação sem comprovação científica.

Fora estes dois casos, não há nenhum outro registro oficial da espécie no Brasil.

De qualquer forma, é importante se precaver. Os pesquisadores recomendam ações urgentes de monitoramento, conscientização e educação da população com relação ao peixe-leão para que, se confirmada a invasão, ela possa ser combatida da forma mais precoce e eficiente possível.

Poster criado pelos pesquisadores para orientar o registro e captura de peixes-leões.

Poster criado pelos pesquisadores para orientar o registro e captura de peixes-leões.