Senado ratifica adesão do Brasil a consórcio europeu de astronomia

Senado ratifica adesão do Brasil a consórcio europeu de astronomia

Quatro anos após assinatura do acordo preliminar, Legislativo ratificou a entrada do Brasil para o Observatório Europeu do Sul (ESO), que opera vários telescópios de ponta nos Andes chilenos. Custo da participação é de $270 milhões de euros até 2021.

Herton Escobar

15 Maio 2015 | 20h06

O observatório ALMA, do ESO. Foto: ESO

O observatório ALMA, do qual o ESO faz parte. Foto: ESO

O Senado brasileiro aprovou na noite de quinta-feira (14/5) o contrato de adesão do Brasil ao Observatório Europeu do Sul (ESO), o maior consórcio de pesquisa astronômica do mundo, que opera vários telescópios de ponta nos Andes chilenos. O grupo, com sede na Alemanha, é formado por 14 nações europeias mais o Chile, que participa como país sede. O Brasil seria o primeiro membro não europeu a fazer parte do consórcio.

A decisão do Congresso coloca fim a uma longa e polêmica espera, que já dura mais de quatro anos, desde que o acordo inicial de adesão foi assinado em dezembro de 2010 pelo então ministro da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende. Agora, falta apenas uma “canetada presidencial” (publicação de decreto) para selar em definitivo o contrato e oficializar a entrada do Brasil para o grupo.

“Estamos muito satisfeitos com a aprovação do Senado Federal e aguardamos ansiosamente a ratificação do acordo pela presidenta Dilma Rousseff”, disse ao Estado o astrônomo Gustavo Rojas, representante brasileiro da Rede de Divulgação Científica do ESO (Eson).

O acordo tem o apoio da maioria da comunidade astronômica brasileira, apesar de ser visto como mau negócio por alguns pesquisadores, que consideram a relação custo-benefício desfavorável para o Brasil. O valor do contrato é de EU$ 270 milhões, que deverão ser pagos em várias parcelas até 2021, segundo informações da Agência Senado. Em retorno, o Brasil passará a ser membro pleno do consórcio, em pé de igualdade com os países europeus (Áustria, Bélgica, República Checa, Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha, Itália, Holanda, Portugal, Espanha, Suécia, Suíça e Reino Unido), incluindo direito de voto em todas as decisões do grupo.

Assim, astrônomos brasileiros ganharão acesso integral às instalações do ESO, que incluem alguns dos maiores e mais avançados observatórios do mundo, como o Very Large Telescope (VLT) e o ALMA, um conjunto de radiotelescópios instalados a 5 mil metros de altitude. Além disso, como membro oficial, o país terá participação garantida na construção do Telescópio Europeu Extremamente Grande (E-ELT), projetado para ser o maior do mundo, com um espelho primário de 40 metros de diâmetro.

“A expectativa é de um salto qualitativo na astronomia brasileira com a entrada para o ESO”, disse ao Estado o presidente da Sociedade Astronômica Brasileira (SAB), Marcos Diaz. “É algo extremamente importante para nós.”

O Brasil, na verdade, já vem sendo tratado como membro pelo ESO há alguns anos, mas sempre dentro de uma expectativa de que o acordo será ratificado e que o país pagará eventualmente o que deve por sua fatia do bolo. Até agora, apesar das regalias de “membro cortesia”, o país não pagou nada ao consórcio.

A principal mudança com relação à situação atual, segundo Diaz, é que o Brasil, como membro pleno, passará a ter direito de voto nos comitês do ESO (hoje participa apenas como ouvinte). Além disso, a indústria brasileira ganhará o direito de participar das licitações para construção do E-ELT. “É uma mudança crucial, porque o telescópio está sendo contratado agora”, diz ele. “Estimamos que até 70% do valor investido pelo Brasil na adesão poderá retornar ao país por meio de contratos para esse projeto.”

Mapa das instalações do ESO nos Andes chilenos.

Mapa das instalações do ESO nos Andes chilenos.

Para mais informações, veja a notícia da Agência Senado e os posts anteriores deste blog sobre o assunto:

Jovens pesquisadores pedem adesão do Brasil ao ESO

Quanto vale conhecer o Universo?

Em outra notícia importante para a astronomia brasileira, a Fapesp assinou recentemente um acordo de US$ 40 milhões para participação no projeto do Giant Magellan Telescope (GMT). Até 2024, a fundação paulista deverá investir quase R$ 200 milhões em astronomia, segundo reportagem de capa da edição deste mês da revista Pesquisa Fapesphttp://goo.gl/NB6y0X. Leia também no blog: Brasil vai ser sócio de telescópio gigante no Chile (notícia de agosto de 2014)

DE OLHO NO UNIVERSO

Conheça os três telescópios gigantes que estão para ser construídos nos próximos anos. O Brasil deverá participar de pelo menos dois deles: o GMT e o E-ELT.

Ilustração de como será o GMT. Crédito: GMT Project

O Giant Magellan Telescope (GMT) – Telescópio Gigante de Magalhães, em português – terá uma área coletora de luz com quase 25 metros de diâmetro, formada por um mosaico de sete espelhos redondos, com aproximadamente 8 metros de diâmetro cada um, organizados na forma de uma flor. Ele será instalado a 2,5 mil metros de altitude no Observatório de Las Campanas, no Deserto de Atacama. Ele poderá produzir imagens com resolução dez vezes melhor do que as do Telescópio Espacial Hubble.

Ilustração de como será o E-ELT. Crédito: ESO/L.Calçada

O European Extremely Large Telescope (E-ELT) – Telescópio Europeu Extremamente Grande, em português – será o maior telescópio já construído, com um espelho primário de 39 metros de diâmetro, formado por um mosaico de aproximadamente 800 espelhos hexagonais, com 1,4 metro de largura cada um. Ele será construído no topo de uma montanha chamada Cerro Amazones, 3 mil metros acima do nível do mar, no Deserto de Atacama.

Ilustração de como será o TMT. Crédito: Courtesy TMT Observatory Corporation

Há ainda um terceiro projeto de telescópio gigante em andamento, chamado Thirty Meter Telescope (TMT) — Telescópio de Trinta Metros –, liderado pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), que será construído no Havaí.