Visão de futuro, persistência e muito trabalho: A receita do sucesso de Paulo Artaxo

Visão de futuro, persistência e muito trabalho: A receita do sucesso de Paulo Artaxo

Herton Escobar

25 Janeiro 2016 | 08h00

Paulo Artaxo. Foto: Marcio Fernandes/Estadão

Paulo Artaxo. Foto: Marcio Fernandes/Estadão

Há muitas maneiras de se medir as qualidades de um pesquisador: número de trabalhos publicados, número de citações, colaborações internacionais, formação de alunos, coordenação de projetos, etc. Mas seja qual for a métrica, é praticamente certeza que o nome Paulo Artaxo aparecerá entre os melhores do Brasil — e do mundo.

Referência internacional no estudo de aerossóis atmosféricos (micropartículas em suspensão, essenciais para a formação de nuvens e regulação do clima), o professor-titular do Instituto de Física da Universidade de São Paulo foi recentemente apontado como um dos pesquisadores “mais influentes” do mundo pela empresa Thomson Reuters. Os critérios usados para compor a lista podem até ser questionados, mas a competência de Artaxo como pesquisador é inquestionável.

Tranquilo, sempre atencioso com a imprensa e desprovido da pompa acadêmica que certamente lhe caberia, Artaxo tem 397 trabalhos científicos publicados, com mais de 12 mil citações — uma medida do impacto de suas pesquisas, mostrando que elas são amplamente usadas como referência por outros cientistas. Na base de dados do Google Scholar, que inclui também capítulos de livros e outras publicações (como os relatórios do IPCC, trabalho pelo qual ele compartilhou o prêmio Nobel da Paz de 2007), o número de citações passa de 26 mil; um número impressionante para qualquer cientista, de qualquer país, em qualquer área do conhecimento.

Qual o segredo para tanto sucesso? “Visão de futuro, persistência e muito trabalho”, diz Artaxo, aos 62 anos. Nessa entrevista, concedida na sala do Instituto de Física que ele ocupa há quase três décadas, o professor fala das vantagens e desvantagens de se fazer pesquisa no Brasil.

Qual a receita para ser um cientista de renome internacional no Brasil?

É uma conjunção de fatores. Primeiro, você precisa vislumbrar oportunidades de pesquisa que sejam relevantes para o país no cenário internacional. Por exemplo, eu fiz o meu mestrado em física nuclear, analisando reações fotonucleares de elétrons de alta energia colidindo com núcleos atômicos. Percebi que essa pesquisa não teria uma repercussão tão grande; então, logo no meu doutorado eu me desloquei para uma área da física mais aplicada, associada ao meio ambiente, que naquela época, em 1985, era uma novidade total e completa. Hoje é fácil olhar para essa área e reconhecer sua relevância, mas 30 anos atrás, não era. Então, essa é outra característica importante: Olhar não só para o futuro, mas para o futuro muito longínquo, e saber aproveitar as oportunidades que aparecem ao longo do caminho.

Não existe uma receitinha pronta, mas basicamente você precisa ter visão de futuro, ser persistente e trabalhar muito, porque não é fácil publicar 20 ou 25 papers por ano ao longo de 30 anos de carreira. É algo que requer uma quantidade de suor físico imensa.

Foi uma escolha estratégica da sua parte, então, de pesquisar uma área que o senhor achava promissora, mas que não recebia muita atenção naquela época?

Sim, na década de 1980 as partículas de aerossóis nem faziam parte da agenda científica. O Paul Crutzen (químico holandês, ganhador do Nobel em 1995, com quem Artaxo colaborou no seu doutorado na Amazônia) estava preocupado com ozônio, metano, gases emitidos em queimadas … Eu olhei e pensei: já tem muita gente trabalhando com essa parte de fotoquímica atmosférica, etc e tal. E as partículas? Ninguém olha para as partículas! Elas são relevantes ou não? Eu poderia ter dado um furo n’água e elas não serem relevantes, e eu teria perdido todo meu investimento ao longo de muitos anos. Aí também entra um componente de sorte; você precisa ter sorte na vida, saber aproveitar as oportunidades, fazer as parcerias certas e ter um senso de oportunidade de pesquisa. São questões chave para construir uma carreira de sucesso.

Se você tiver visão de curto prazo, só pensar no que vai fazer nos próximos um ou dois anos, dificilmente vai chegar lá”

Você precisa ser persistente, acreditar em você mesmo e no produto do seu trabalho, a médio e longo prazo. Se você tiver visão de curto prazo, só pensar no que vai fazer nos próximos um ou dois anos, dificilmente vai chegar lá. Tem que ter uma visão estratégica de ciência de médio e longo prazo. É difícil ter essa visão quando se está no início da carreira, e para isso é importante ouvir as pessoas certas.

Quando você escolhe uma linha de pesquisa hoje, então, tem que pensar naquilo que vai ser importante no longo prazo — não necessariamente no que é importante agora.

Isso a gente tem que fazer o tempo todo em ciência. Por exemplo, estamos estudando agora no experimento GOAmazon o impacto da poluição de Manaus, que é rodeada por 1.500 km de floresta. Será que isso é importante? Se você olhar para o nosso planeta daqui 40 ou 50 anos, talvez a Amazônia tenha 15, 20 cidades como Manaus. Na Indonésia e na África tropical, as cidades já estão crescendo em cima da floresta; então o que vamos descobrir em Manaus vai ser importante para a Indonésia, para a África, e vai ser relevante para o futuro do Brasil. Então, os trabalhos que estamos publicando hoje serão citados nos próximos 20, 30 anos como os primeiros exemplos de como uma cidade afeta a produção de partículas, de gases e nuvens numa região não perturbada do planeta.

E para ganhar visibilidade internacional, as colaborações são essenciais?

Assim como a economia, a ciência hoje é globalizada, queira ou não queira. A quantidade de coautores estrangeiros que tenho nos meus trabalhos é enorme, porque desde o início eu acreditei na cooperação internacional como chave para fazer uma ciência de qualidade. Se você faz um trabalho isolado, pode até ser de qualidade, mas suas chances são menores. Mesmo se você estuda tribos isoladas da Amazônia, precisa ter a percepção de que as conclusões que tira daqui com certeza são importantes para a antropologia de outras regiões, e para a antropologia global, para explicar a ocupação do nosso planeta. Então você tem sempre que ter uma visão mais ampla do que aquilo específico que você está fazendo. Isso se aplica todos os dias ao nosso trabalho.

Desde o início eu acreditei na cooperação internacional como chave para fazer uma ciência de qualidade”

Te dou mais um exemplo pessoal: Estudamos o impacto da frota veicular na poluição do ar de São Paulo, comparando veículos a gasolina e etanol, ao longo dos últimos quatro anos, e agora você vê vários países implantando programas de biocombustíveis; então os trabalhos que nós fizemos quantificando o impacto da poluição veicular de São Paulo serão importantes em Milão, Londres, Estocolmo, Nova York, porque o uso de biocombustíveis vai aumentar no mundo todo. É uma questão de visão estratégica: você está estudando a poluição de São Paulo, mas olhando para o planeta como um todo, e isso é um diferencial importante — isso gera citações e gera colaborações.

Quanto da comunidade científica no Brasil segue essas orientações? Por que a ciência brasileira não tem um destaque maior no cenário internacional?

Veja essa lista da Thomson Reuters: de um banco de dados de 9 milhões de pesquisadores, eles separaram 3 mil como os que têm o maior número de citações, e só 4 são brasileiros. É um número surpreendente, muito pequeno dentro do cenário econômico, político e social que o Brasil ocupa no planeta. Se a lista fosse baseada em outras métricas, talvez fossem 10 ou 15 pesquisadores; mas isso não importa, não é a questão mais relevante. Existe uma série de entraves, tanto na universidade quanto no sistema de financiamento de pesquisa e na burocracia estatal, que traz uma quantidade enorme de dificuldades para o trabalho científico no Brasil.

A burocracia é um problema gigantesco para dinamizarmos as nossas pesquisas, assim como a questão de importação e exportação. Nos Estados Unidos, se eu preciso de um equipamento eu pego o telefone e três dias depois esse equipamento está no meu laboratório. No Brasil, são seis meses para fazer qualquer tipo de importação, por exemplo. Isso é um atraso enorme, que atravanca muito a ciência brasileira, e precisamos retirar o quanto antes esses entraves.

Temos cientistas brilhantes em todas as áreas do conhecimento”

Não é um problema de falta de qualidade dos pesquisadores, então? O problema está no sistema?

Não, não é um problema de formação. Temos cientistas brilhantes em todas as áreas do conhecimento. Por exemplo, em climatologia e meio ambiente, o Brasil é, sim, uma liderança mundial; faz pesquisa em igual nível de condições que a Nasa, NOAA ou Instituto Max Planck. Do ponto de vista intelectual temos o mesmo nível, mas do ponto de vista operacional da ciência, estamos 50 anos atrás. Esses entraves precisam ser removidos; nossa ciência poderia ser muito mais eficiente com as mesmas pessoas e com um custo muito menor.

Conheça a ATTO, a torre gigante de pesquisa na Amazônia: http://infograficos.estadao.com.br/cidades/torre-amazonia/atto/#

Conheça a ATTO, a torre gigante de pesquisa na Amazônia: http://infograficos.estadao.com.br/cidades/torre-amazonia/atto/#

O senhor tem algum exemplo pessoal disso?

Veja o que está acontecendo na torre ATTO: Nós temos um observatório maravilhoso, único no mundo, de 325 metros de altura, no meio da floresta amazônica, e agora estamos fazendo todo o processo burocrático para importação dos equipamentos necessários para instrumentalizar essa torre. A burocracia brasileira exige que para cada instrumento eu tenha uma cotação de 3 preços, mas a maioria desses instrumentos é única, tem apenas um fabricante no mundo, porque são extremamente específicos para fazer medidas de alta precisão. Então, não tem como abrir uma concorrência de preços. Fora do Brasil, o pesquisador encomenda o equipamento e ele chega no dia seguinte. No Brasil, isso leva seis meses, com um custo extremamente elevado para o país.

Fora do Brasil, o pesquisador encomenda o equipamento e ele chega no dia seguinte. No Brasil, isso leva seis meses”

Como o senhor descreveria o cientista brasileiro?

É importante perceber que temos características muito particulares e peculiares, comparado aos cientistas de outros países. Nós sabemos improvisar muito bem, justamente por conta das dificuldades que temos de enfrentar. Conseguimos soluções criativas que pesquisadores de outros países não conseguem; e nossa maneira de achar soluções é em geral muito criativa, muito menos pela força bruta e mais pela imaginação. Somos treinados para isso, tendo de achar soluções criativas para as dificuldades do dia a dia. Temos uma série de vantagens estratégicas no Brasil.

O cientista brasileiro arrisca o suficiente para fazer grandes descobertas?

Um dos problemas é que a quantidade de recursos financeiros é muito limitada fora do Estado de São Paulo, então há pouco espaço para arriscar. Um pesquisador no interior do Piauí ou do Maranhão, por exemplo, em geral vai ter um projeto aprovado no CNPq que paga entre R$ 50 mil e R$ 100 mil a cada dois anos. Se ele se arrisca numa pesquisa que não dá certo, isso vai atrasar o desenvolvimento da sua vida científica em dois anos. Nos Estados Unidos isso não existe porque as fontes de financiamento são muito mais diversificadas — se não dá certo com uma fonte, pode-se usar outras fontes para dar continuidade à sua carreira, e isso faz uma diferença importante.

Além disso, as agências de fomento em geral lançam editais e esperam muito pelas demandas dos pesquisadores, em vez de assumir um papel mais ativo de inovação, lançando editais voltados para ideias mais ousadas, inovadoras, coisas que ninguém nunca fez. Isso é muito raro no Brasil; precisávamos ter mais inovação desse ponto de vista. Mas para isso precisamos ter um sistema azeitado para tolerar o fracasso, as experiências que não vão dar certo.

Eu tive várias ideias ao longo da minha carreira que não deram certo, mas você só vai descobrir isso depois de tentar arduamente”

Além de mais dinheiro, então, precisa haver uma mudança cultural, na forma de pensar da ciência brasileira?

Exatamente. Fazer inovação é uma atividade de risco; pode ser que dê certo, pode ser que não. Eu mesmo tive várias ideias ao longo da minha carreira que não deram certo, mas você só vai descobrir isso depois de tentar arduamente com todos os recursos disponíveis. Tem que arriscar para haver inovação.

As universidade estão abertas para esse tipo de risco? Um aluno de pós-graduação, por exemplo, que precisa produzir uma publicação ao final do seu mestrado ou doutorado, tem espaço para arriscar?

O espaço existe, mas é pequeno. Como os prazos são muito curtos para completar o doutorado, o próprio orientador acaba dizendo para não arriscar muito, porque ninguém quer colocar seus alunos numa fria. Então, isso acontece sim; você tende a ter projetos mais conservadores, mas que você sabe que vão gerar uma tese de doutorado para o seu aluno no prazo que ele precisa; em vez de arriscar numa ideia muito inovadora e, no meio do caminho, perceber que não vai dar certo e você ter de começar tudo de novo, colocando em risco a bolsa e o sustento do seu aluno.

Tem que haver mais espaço para arriscar, e as agências de fomento têm que entender que inovação só se faz com risco, e que talvez 10% ou 20% das vezes você erra, e isso faz parte da estatística. Mas esses 10% ou 20% de erros são fundamentais para os outros 80%, 90% de projetos que deram certo com alguma inovação.

A produção científica do Brasil cresceu muito nas últimas décadas em quantidade, mas a qualidade não cresceu na mesma proporção. Como melhorar isso?

O Brasil teve uma expansão enorme de seu sistema de pós-graduação e financiamento de pesquisa, e o resultado disso foi um aumento da produção científica. Agora, a produção científica poderia, sim, ter aumentado mais em qualidade, e isso não aconteceu por causa dos vários motivos que já conversamos: entraves burocráticos, falta de inovação, e porque os recursos ainda são extremamente escassos para permitir trabalhos de grande escala e alta qualidade. Por exemplo, se você recebe R$ 50 mil por ano para fazer uma pesquisa, pode ter certeza que se você tivesse um financiamento mais adequado poderia melhorar a qualidade do seu resultado. A qualidade do resultado também depende da quantidade de recursos investida em cada projeto — quantas bolsas de estudantes você pode envolver num cálculo de modelagem, por exemplo. Quando você aumenta o espectro de pessoas trabalhando em visões diferentes do mesmo problema, sua chance é maior de chegar a um resultado de alta qualidade.

Sempre tive muito claro que meu lugar é aqui, no Brasil”

Há uma série de medidas que precisam ser tomadas, mas nada disso vem de graça nem acontece do dia para a noite; é um processo que demora. O sistema de ciência e tecnologia de qualquer país tem uma inércia muito grande; não é só injeção de dinheiro, é um trabalho lento de formação de pesquisadores, de estudantes e aumento do quadro das universidades. Hoje formamos um número enorme de mestres e doutores, mas o quadro de empregos nas universidades e nos institutos de pesquisa está saturado, então muitos pós-docs e jovens pesquisadores estão sem perspectiva do ponto de vista de conseguir emprego. Precisamos expandir ainda mais essa base para o Brasil dar um salto ainda maior em quantidade, qualidade e relevância da pesquisa produzida no país.

O senhor fez 4 pós-doutorados fora do Brasil. Já pensou ou pensa em deixar o país?

Tive ofertas de emprego na Nasa, no Max Planck e outros lugares. Poderia ter ido para vários laboratórios de ponta no mundo, mas sempre tive muito claro, desde o meu mestrado, que o meu lugar é aqui, no Brasil. É aqui que eu quero contribuir com a minha ciência, para o desenvolvimento científico e tecnológico do país.