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Zika e microcefalia: Uma relação complicada

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Zika e microcefalia: Uma relação complicada

Evidências que incriminam o vírus estão se acumulando, mas ainda não está comprovado cientificamente que ele causa a má-formação do cérebro em bebês. Entenda quais são as dúvidas e os possíveis cenários do que está acontecendo nessa epidemia.

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Herton Escobar

12 Fevereiro 2016 | 07h00

Foto: Gabriela Biló/Estadão

Foto: Gabriela Biló/Estadão

Zika causa microcefalia? Essa é a pergunta crucial que atormenta a vida de milhares de mulheres hoje no Brasil. E a resposta mais sensata que se pode dar neste momento de crise é: “Muito provavelmente, sim. E até que se prove o contrário, todo cuidado é pouco”.

Evidências contra o vírus estão se acumulando rapidamente. Novos estudos divulgados nesta semana confirmam que o zika tem capacidade para infectar o cérebro de fetos e que ele está presente no cérebro de bebês com microcefalia. Pode-se dizer, portanto, que ele já foi identificado na cena do crime. Isso é fato. Falta comprovar, porém, se ele é assassino, cúmplice ou um mero observador passando pelo lugar errado na hora errada.

A única forma cientificamente válida de fazer isso é “reproduzindo o crime” em laboratório, inoculando o vírus no cérebro de modelos animais e em culturas de células neuronais humanas, para ver se ele interfere da mesma forma com o seu desenvolvimento. Esses estudos já estão sendo feitos em laboratórios no Rio e em São Paulo, e os resultados devem sair em breve.

Um grande problema até o momento é que os dados epidemiológicos disponíveis sobre a dispersão do zika e sua associação com a microcefalia ainda são escassos e de baixa precisão, devido a uma série de inconsistências nos sistemas de análise e notificação dos diferentes Estados e da ausência de um teste rápido de diagnóstico que permita confirmar ou excluir casos com agilidade. As evidências são fortes, mas não são conclusivas. Ainda assim, temos o suficiente para levantar algumas hipóteses sobre o que pode estar acontecendo …

Vamos aos números: Segundo o último boletim epidemiológico divulgado pelo Ministério da Saúde, 4.783 casos suspeitos de microcefalia foram registrados no país desde meados de 2015 até 30 de janeiro de 2016. Um número assustador, considerando que a média registrada anteriormente não chegava a 200 casos confirmados por ano. Mas há duas perguntas importantes que precisam ser respondidas sobre isso: Quantos desse 4.783 casos suspeitos são casos verdadeiros de microcefalia? E qual é a confiabilidade das estatísticas históricas de microcefalia no Brasil?

(Após a publicação deste artigo o Ministério da Saúde divulgou um novo boletim. Todos os números aumentaram, mas a argumentação continua a mesma.)

O biólogo Fernando Reinach faz uma consideração importante em sua coluna publicada na semana passada no Estadão: Nos Estados Unidos são reportados 25 mil casos de microcefalia por ano; o que representa 0,6% da população de bebês nascidos anualmente naquele país. Se essa mesma proporção for aplicada ao número de bebês nascidos no Brasil (cerca de 3 milhões por ano), deveríamos ter algo em torno de 19 mil crianças nascidas com microcefalia anualmente no país. De duas, uma: Ou a estatística americana está inflada ou a brasileira está subestimada. Não que a ocorrência deveria ser a mesma nos dois países (certamente não é), mas trata-se de uma diferença demasiadamente grande. Um dos lados está exagerando, para mais ou para menos, e o mais provável é que os números históricos de microcefalia no Brasil estejam abaixo da realidade.

PARECE, MAS NÃO É?

Voltando às estatísticas do Ministério da Saúde: Desses 4.783 casos suspeitos notificados, 709 foram descartados, 3.670 estão sob investigação e 404 foram confirmados como casos reais de microcefalia “e/ou outras alterações do sistema nervoso central” relacionados a infecções virais ou bacterianas. Desses 404 bebês, apenas 17 (ou 0,04%) foram comprovadamente infectados pelo vírus zika — mas atenção: sem excluir a possibilidade de a mãe ter tido outras infecções, como sífilis ou citomegalovírus, que também podem ser responsáveis pela má-formação.* Quando o Ministério da Saúde fala em casos confirmados “com relação ao zika”, está dizendo que a presença do vírus foi confirmada no organismo da criança que nasceu com microcefalia; não que o vírus foi confirmado como a causa da microcefalia.

Ou seja: Dentro daquilo que já foi investigado, a maioria dos casos suspeitos de microcefalia não é microcefalia; e dentre aqueles que são casos verdadeiros, apenas uma minoria pode ter relação com o zika. Por isso a Organização Mundial da Saúde, apesar de ter declarado um estado de emergência global, ainda reluta em estabelecer uma relação direta entre a microcefalia e o zika.

Em um artigo publicado na revista médica The Lancet, um grupo de médicos e pesquisadores brasileiros recomenda, com base nesses números, que tanto o Brasil quanto os órgãos internacionais deixem de divulgar estatísticas de casos suspeitos e passem a reportar apenas o número de casos confirmados de microcefalia, de modo a reduzir a sensação de pânico na população e o sofrimento emocional das famílias confrontadas com uma situação de falso-positivo (suspeitas de microcefalia baseadas apenas na circunferência da cabeça, que não se confirmam após exames neurológicos). Os autores chamam atenção para o fato de que a maioria (68%) dos bebês no Brasil nascem antes de completar 40 semanas de gestação, em parte por causa da alta taxa de cesarianas no país, o que aumenta a probabilidade de eles nascerem pequenos. Em resumo: Nem todo bebê que nasce com menos de 32 cm de perímetro cefálico tem microcefalia; e nem todo caso de microcefalia tem relação com o zika.

O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, disse no início do mês que nenhum caso de microcefalia havia sido registrado entre as mais de 3 mil mulheres grávidas diagnosticadas com zika no seu país. A não ser que esta seja uma declaração política, com o intuito de esconder a realidade, é um fato que merece ser investigado — inclusive para verificar como esse monitoramento está sendo feito e a confiabilidade dos dados.

EVIDÊNCIAS

O fato de o vírus ter sido detectado no organismo da mãe, na placenta e até no cérebro de alguns bebês nascidos com microcefalia não significa, necessariamente, que a má formação foi causada por ele. Por exemplo: Se você fizer uma autópsia numa pessoa idosa que morreu de causas naturais, muito provavelmente vai encontrar vestígios de câncer no organismo dela, mas isso não significa que foi o câncer que a matou. Assim como ela poderia estar gripada no momento que morreu, mas não significa que foi o vírus da gripe que a matou. É possível que essas mães tenha sido infectada pelo zika durante a gestação, mas que a microcefalia tenha se desenvolvido no feto por outras causas — ou por uma combinação do zika com outros fatores de risco genéticos ou ambientais.

Seja como for, é essencial que todos os casos suspeitos continuem a ser investigados. Não se pode esquecer também que a maioria dos casos de zika é assintomática, e que o vírus só pode ser detectado no organismo adulto durante alguns dias, o que torna extremamente difícil estabelecer uma relação entre a doença na mãe e a má-formação no bebê. A mulher pode ter sido infectada pelo zika durante a gestação e não ter nenhuma evidência disso.

CENÁRIOS POSSÍVEIS

Esses são alguns cenários do que pode estar acontecendo:

1) Está ocorrendo, de fato, um aumento explosivo do número de bebês nascidos com microcefalia no Brasil, principalmente no Nordeste, e isso está diretamente relacionado à epidemia de zika, que não era um vírus circulante no país até o ano passado. (Cenário mais preocupante e talvez o mais provável).

2) Pode ser que o zika cause microcefalia, mas não necessariamente em todos os bebês. Assim como ocorre com outros vírus, os efeitos da infecção podem ser modulados por outros fatores relacionados ao estado de saúde da pessoa — neste caso, da mulher gestante. Um exemplo bem simples é que uma mesma cepa de vírus da gripe pode causar diferentes sintomas em diferentes pessoas — desde uma simples coriza num jovem saudável até complicações respiratórias graves num idoso com o sistema imunológico debilitado. É possível que o zika só cause microcefalia quando contraído num determinado período da gestação e/ou em combinação com outros fatores de risco que acentuem seus efeitos patogênicos. Também é possível que haja diferentes cepas do vírus em circulação, e que algumas sejam mais agressivas que as outras.

3) O aumento do número de casos de microcefalia não passa de uma anomalia estatística, derivada da subnotificação de casos no passado, e não tem relação com o zika. Em outras palavras: Essa quantidade de bebês com microcefalia sempre existiu no Brasil, mas ninguém estava prestando atenção até surgir essa suspeita de relação com o zika. Lembrando que a estatística mais assustadora por enquanto é a de casos suspeitos, e que a maioria desses casos tende a não se confirmar — são crianças normais, que só nasceram com a cabeça um pouco pequena e vão se desenvolver normalmente.

4) O aumento do número de casos de microcefalia é real, mas não é tão grande quanto se imagina e pode não ter relação apenas com o zika. Há muitos outros patógenos e fatores de risco que podem gerar uma má formação do cérebro: toxoplasmose, citomegalovírus, rubéola, sífilis, herpes, exposição a agentes químicos e outras formas de contaminação durante a gestação. Podem haver outros problemas de saúde pública por trás dessa “epidemia de microcefalia” que ainda não foram identificados.

Seja qual for o cenário verdadeiro, a recomendação mais importante neste momento é evitar ser picado, eliminar criadouros do mosquito Aedes aegypti, e não acreditar em teorias ridículas da conspiração, segundo as quais a microcefalia é causada por lotes vencidos de vacinas e o zika é transmitido por mosquitos transgênicos. São boatos sem qualquer fundo de verdade.

Não sabemos muita coisa ainda sobre essa epidemia. Mas sabemos que a única maneira de acabar com ela é acabando com o Aedes aegypti.

Leia também no blog: Cientistas buscam provas definitivas da relação entre zika e microcefalia

*Parágrafo atualizado às 17h30, com mais informações, após esclarecimentos do Ministério da Saúde.

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