Zhonghe Zhou / Academia Chinesa de Ciências
Zhonghe Zhou / Academia Chinesa de Ciências

Cientistas acham ovos de pterossauros na China

Pela 1.ª vez, foram encontrados embriões da espécie preservados em três dimensões; trabalho é de brasileiros e chineses

Fábio de Castro e Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

30 Novembro 2017 | 17h00
Atualizado 30 Novembro 2017 | 23h41

RIO E SÃO PAULO - No inóspito deserto de Gobi, no noroeste da China, paleontólogos chineses e brasileiros descobriram o maior ninho jamais encontrado de pterossauros, os pré-históricos répteis alados. Foram estudados 215 ovos em um ninho onde se estima que havia cerca de 300. Dentre os fósseis, com 120 milhões de anos, foram achados os primeiros embriões preservados em três dimensões. A descoberta, considerada uma das mais importantes dos últimos dez anos, foi publicada nesta quinta-feira, 30, na revista científica Science.

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O estudo, assinado por cientistas brasileiros e chineses, foi apresentado nesta quinta no Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Até hoje, só tinham sido descobertos três embriões de pterossauros, dois na China e um na Argentina. Os três, porém, estão amassados.

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“Essa é a primeira vez que embriões são encontrados como os ossos tridimensionais”, explica o paleontólogo Alexander Kellner, do Museu Nacional da UFRJ, um dos responsáveis pela pesquisa. 

O estudo dos ossos dos embriões revelou também uma informação inédita. Quando nasciam, os pterossauros eram capazes de andar, mas não de voar, indicando que precisavam de cuidados parentais até se tornarem independentes.

Os pterossauros formam um grupo extinto de répteis alados: são os primeiros vertebrados a estabelecerem o voo ativo. Eles viveram entre 220 milhões e 66 milhões de anos atrás, no período geológico conhecido como Cretáceo. Foram extintos juntamente com os dinossauros sem deixar descendentes.

Embora fósseis de pterossauros já tenham sido encontrados em todos os continentes, a maioria dos achados costuma ser muito econômica, restrita a um único exemplar e partes fragmentadas do esqueleto. Isso acontece por causa da fragilidade dos ossos, muito finos e delicados, o que dificulta a sua preservação. No entanto, o seco e desabitado deserto de Gobi se revelou um ótimo local para a conservação dos fósseis.

Além dos ovos e embriões, foram achadas também dezenas de ossos de pterossauros, todos da espécie Hamipterus tianshanensis, que havia sido descoberta em 2011 pela mesma equipe, liderada por Kellner e por Xiaolin Wang, da Academia Chinesa de Ciências. As pesquisas foram feitas nas proximidades da cidade de Hami, na província chinesa de Xingjiang. 

Os fósseis estavam dispostos em um pacote de rochas de 2,2 metros de altura, distribuídos em oito níveis, cada um deles representando uma época diferente. O local é um paredão rochoso, onde ossos e ovos se acumularam em diversas camadas. O trabalho é meticuloso: foi preciso escavar a rocha com cuidado extremo para não danificar o material, de acordo com os paleontólogos.

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Acreditamos que essa coleção de ovos tem mais embriões, mas decidimos não abrir todos eles, já que é possível que no futuro sejam desenvolvidas técnicas melhores para estudar o interior dos ovos sem precisar quebrá-los.
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Alexandre Kellner, autor do estudo

“Quando encontramos essa espécie pela primeira vez (em 2011), vimos que os ossos estavam presentes em grande quantidade - e havia cinco ovos. A equipe chinesa continuou com as escavações até fazer essa nova descoberta vultosa”, disse Taissa Rodrigues, outra autora do estudo, do Laboratório de Paleontologia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). A quantidade de ovos encontrados, disse, aumentou a chance de a equipe encontrar embriões, como aconteceu. 

O cientista Xin Cheng - um dos 15 chineses que participaram da pesquisa - explica que as características da região do deserto de Gobi favoreceram o achado. “É uma área muito seca, o que favorece a conservação dos fósseis. Por isso conseguimos encontrar três grandes depósitos.”

Três dimensões

Segundo Taissa, quando os frágeis ovos são encontrados esmagados, os embriões não fornecem tantas informações. Mas, quando eles estão em três dimensões, é possível tirar várias conclusões sobre a espécie. Uma saliência que aparece em um osso, por exemplo, é rapidamente identificada como o local onde ficavam os músculos e tendões que controlavam as asas. 

Com estas informações, os cientistas conseguem reproduzir detalhes precisos da anatomia do animal, além de seus movimentos e hábitos.

Descoberta indica necessidade de ‘cuidados parentais’

 A abundância do material encontrado pelos cientistas continuará produzindo conhecimento sobre os pterossauros por vários anos. Mas os estudos preliminares já levaram a avanços no que se sabe sobre esses animais, mostrando, por exemplo, que provavelmente os pterossauros recém-nascidos exigiam cuidados parentais, como acontece com as aves.

“Conseguimos constatar em alguns dos embriões uma ossificação diferenciada de ossos associados às asas e aos membros posteriores. O úmero, que é o principal osso do braço envolvido com a atividade de voo, não estava ainda tão bem formado como as pernas”, explicou Alexander Kellner, do Museu Nacional da UFRJ. 

 

Isso indicaria que, ao nascer, os pterossauros ainda não eram capazes de voar - e por isso precisavam da ajuda dos adultos, como acontece com as aves, e diferentemente do que ocorre com animais como crocodilos e tartarugas. “É muito provável que essa seja a primeira evidência direta de uma necessidade biológica de cuidados parentais.”

Além disso, como os ovos foram encontrados juntos em tamanha quantidade, Kellner afirma que os pterossauros certamente formavam colônias para reproduzir - e possivelmente também para acasalar.

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