Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Cientistas paulistas e nordestinos disputam fósseis do Araripe

Peças, furtadas no Nordeste, foram recuperadas e levadas à Universidade de São Paulo para pesquisa

Fábio de Castro, O Estado de S.Paulo

27 Janeiro 2018 | 04h00

SÃO PAULO - Mais de quatro anos após uma apreensão de quase 3 mil fósseis furtados da Bacia do Araripe, no Nordeste, cientistas paulistas e nordestinos disputam o material. Os fósseis, com idades de 100 milhões a 120 milhões de anos, foram retirados da região do Cariri, que inclui partes do Ceará, Pernambuco e Piauí. A Bacia do Araripe é uma das maiores e mais importantes jazidas do Período Cretáceo no Brasil e no mundo.

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Em 2014, quando a Justiça Federal decidiu que os fósseis recuperados pela Polícia Federal na França, em Minas Gerais e no interior de São Paulo fossem cedidos à Universidade de São Paulo (USP), que deveria armazená-los adequadamente e, principalmente, estudá-los - por causa de sua importância científica. 

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A decisão foi cumprida e, de acordo com a pesquisadora responsável pelo material, Juliana Leme, professora de Paleontologia do Instituto de Geociências da USP, os fósseis - furtados para serem vendidos por altos valores a museus privados no exterior - estão proporcionando conhecimento científico há mais de um ano. Na universidade paulista, eles têm sido utilizados em aulas, pesquisas de mestrado e doutorado e na divulgação científica: a instituição inaugurou recentemente uma exposição com mais de 50 peças importantes do acervo apreendido.

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De acordo com Juliana, os abundantes fósseis são “um tesouro científico brasileiro.” “O material enviado à USP é belíssimo, com muitas peças raras. Vários fósseis estão em um grau incomum de preservação. É um alívio que isso não tenha ido parar em coleções particulares fora do País”, afirma.

Apesar do aparente final feliz, a escolha da USP como depositária dos fósseis causou protestos. O paleontólogo Álamo Saraiva, professor da Universidade Regional do Cariri (Urca), discorda da decisão judicial e entrou com um recurso para que os fósseis sejam enviados de volta à região de origem.

“Por sorte, pudemos contar com a Polícia Federal e a Agência Brasileira de Inteligência, que têm feito um trabalho tão bom que até nos surpreende. Mas ainda temos um grande problema aqui no Cariri: além de ter de lidar com os traficantes de fósseis, somos vítimas do ‘fogo amigo’”, diz Saraiva, que é curador do Museu de Paleontologia da Urca, em Santana do Cariri, no Ceará, referindo-se aos cientistas do Sudeste.

Patrimônio local e nacional. Saraiva explica que, para os pesquisadores nordestinos, a presença dos fósseis no Ceará é fundamental para o desenvolvimento sustentável da região, que abriga o Geopark Araripe, parte de uma rede global de geoparques ligada à Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco). Criados em áreas do mundo onde há patrimônio geológico importante, os geoparques envolvem ciência, conservação ambiental e do patrimônio cultural, educação, geoturismo e desenvolvimento econômico.

“Vivemos dos fósseis, que têm valor de patrimônio cultural. Eles perdem esse valor quando saem daqui e vão parar em gavetas em universidades de São Paulo e do Rio, embora ainda mantenham o valor científico”, declarou Saraiva.

Juliana, por outro lado, argumenta que a USP está apenas cumprindo uma decisão judicial, segundo a qual o Instituto de Geociências da USP foi escolhido como destino das peças “por ter totais condições de dar a elas o tratamento e uso científico adequado”.

A pesquisadora também alega que a USP investiu recursos e trabalho no material, já que a universidade recebeu os fósseis lacrados em outubro de 2014, acompanhados de laudos técnicos. O processo para retirar o lacre, identificar, acondicionar e guardar peça por peça durou um ano. Apenas no fim de 2015 o material foi liberado para pesquisa. 

Nos dois anos seguintes, a coleção proporcionou pelo menos oito pesquisas de iniciação científica, mestrado e doutorado, de acordo com Juliana. No fim de 2016 foi lançado o edital para a exposição e, um ano depois, ela foi aberta ao público. “Não é verdade, absolutamente, que esse material ficou engavetado”, defende.

Saraiva, porém, contesta o investimento feito pela USP. “Se a USP tivesse injetado muitos recursos no material apreendido, eu até aceitaria que a coleção ficasse em São Paulo. Mas o que requer mais investimento é a preparação dos fósseis e esse material já estava perfeitamente preparado”, disse.

A preparação dos fósseis é um processo de alta complexidade técnica, no qual os especialistas retiram minuciosamente, no laboratório, o excesso de sedimentos incrustados nas peças, para que as características dos fósseis fiquem visíveis, permitindo seu estudo.

Segundo Saraiva, pela alta qualidade da preparação dos fósseis apreendidos, é possível até mesmo identificar o paleontólogo que fez o serviço: o alemão Michael Schwickert, considerado um dos principais contrabandistas de fósseis do Araripe há pelo menos 20 anos. De acordo com a PF, ele está entre as 13 pessoas que integravam a quadrilha desbaratada. “Basta olhar para o material para constatar que a preparação primorosa foi feita por ele. Quando a USP recebeu a coleção, não havia mais nada a fazer ali em termos de preparação de fósseis.” 

 

USP questiona segurança; Urca destaca ‘dividendos’ 

Professora de Paleontologia da Universidade de São Paulo (USP), Juliana Leme questiona a segurança no Ceará para abrigar a valiosa coleção de fósseis. “Como um geoparque permite que 3 mil fósseis sejam contrabandeados?” 

Álamo Saraiva, professor da Universidade Regional do Cariri (Urca), admite falhas na segurança do Geopark Araripe, ligado à Unesco. “O geoparque tem 3,4 mil quilômetros quadrados e a fiscalização é incapaz de fazer a cobertura de tudo isso”, explica.

Segundo o professor, porém, as coleções do museu estão “dentro das melhores condições”. “Temos instalações adequadas e pessoal qualificado para estudar e cuidar desses fósseis. Sei que o Sudeste é mais rico, tem mais tradição em pesquisa e as melhores universidades do País. Mas, ficando na Bacia do Araripe, esses fósseis trazem dividendos para a região”, diz ele.

“Eu rogo aos colegas que trabalham na Bacia do Araripe para serem sensíveis a isso. Venham trabalhar aqui, mas deixem os fósseis importantes na região”, completa Saraiva.

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Com raridades, acervo atrai crianças

Exposição inaugurada no fim do ano passado selecionou 50 peças, entre elas o raro esqueleto completo de um pterossauro

Fábio de Castro, O Estado de S.Paulo

27 Janeiro 2018 | 04h00

SÃO PAULO - O Museu de Geociências da USP inaugurou no fim de dezembro a mostra Fósseis do Araripe, com base nas quase 3 mil peças apreendidas pela Operação Munique, da Polícia Federal, em outubro de 2013. “O material era valiosíssimo do ponto de vista científico. De todas as peças, escolhemos as 50 mais interessantes e raras para montar a exposição”, conta Juliana Leme, pesquisadora da USP.

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A peça mais importante da mostra é o esqueleto completo de um pterossauro - um réptil alado pré-histórico - da espécie Tapejara navigans, o único exemplar inteiro no mundo. “Hoje, são conhecidas cerca de 50 espécies de pterossauros no mundo e 23 delas foram identificadas na Bacia do Araripe. O Tapejara navigans já era conhecido, mas não havia nenhum esqueleto completo. O valor científico desse fóssil é inestimável.”

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A exposição traz ainda fósseis de peixes, insetos, plantas, crocodilos e camarões - todos com cerca de 110 milhões de anos. “A ideia é que as pessoas conheçam e entendam essa riqueza, e percebam que não se pode comercializar esse tipo de material. E, além disso, queremos estimular o interesse pela paleontologia na sociedade em geral, e entre as crianças em particular”, diz.

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Os pequenos visitantes são acolhidos pelo geólogo que atua no setor educativo Museu de Geociências, Ideval Souza Costa. De acordo com ele, o museu recebe 4 mil visitas avulsas e mais 12 mil visitantes de escolas anualmente, mas a expectativa é que o número cresça em 2018. “A paleontologia tem uma linguagem muito técnica. Procuro ser mais pedagógico para que as crianças entendam. Muitas delas ficam fascinadas com os fósseis”, conta Costa. 

Aprovação

“É muito bonita toda a exposição, mas o que eu mais gostei foi o fóssil do pterossauro. Os cientistas fazem um trabalho muito duro, mas que vale a pena”, disse Lucas Lujan, de 8 anos, que visitou a exposição com seu irmão Matteo, de 10 anos, e a avó, Carmen Rossi. Lucas também adorou tocar os fósseis - uma das atividades coordenadas por Costa é realizada em uma pequena bancada onde há peixes fossilizados menos raros, que podem ser manipulados pelas crianças. 

“Quando crescer, quero ser arqueólogo”, disse Roberto Cruz, o Beto, de 5 anos, que visitou o Museu de Geociências da USP pela segunda vez. “Da primeira vez fiquei assustado com o esqueleto do tiranossauro, mas aprendi bastante sobre eles e gosto muito de dinossauros”, conta o menino, acompanhado da irmã Júlia e da mãe Helena Santos.

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