Neymar e a ‘fábrica de craques’ do futebol brasileiro

Neymar e a ‘fábrica de craques’ do futebol brasileiro

Variabilidade genética e ambiente propício ajudam o país a produzir grandes jogadores, diz o coordenador do UFMG Soccer Science Center, Varley Costa, que será um dos palestrantes do próximo USP Talks

Herton Escobar

18 Junho 2018 | 07h00

Foto: Nilton Fukuda/Estadão

Neymar, Messi, Cristiano Ronaldo. O que esses caras têm de diferente? Qual é a receita de um craque de futebol, se todos os jogadores têm as mesmas duas pernas e a bola é igualmente redonda para todos? Certamente há um fator genético envolvido, mas isso não é tudo. Para florescer em campo, o DNA do craque precisa ser cultivado num ambiente ideal desde pequeno, e é aí que o Brasil leva vantagem sobre outros países: tem uma variabilidade genética imensa, e um ambiente ideal para a evolução constante de novos mestres da bola. É a chamada “fábrica de craques” brasileira.

“Imagine se o Neymar, com todo o seu potencial genético, tivesse nascido em um país como a Finlândia; será que ele teria tido condições de desenvolver todo o seu potencial como jogador? Provavelmente não, pois teria perdido todas as oportunidades e facilidades que estão relacionadas à estimulação ambiental no Brasil”, diz o professor Varley Teoldo da Costa, coordenador do UFMG Soccer Science Center, da Universidade Federal de Minas Gerais. 

Ele será um dos palestrantes do próximo USP Talks, sobre o tema “Futebol: Esporte, Cultura e Paixão”, que acontece nesta terça-feira (19), das 18h30 às 19h30, no auditório do Museu de Arte de São Paulo (MASP), com entrada gratuita e transmissão ao vivo pelo Facebook. O outro palestrante da noite será o sociólogo Mauricio Murad, que falará sobre o papel do futebol na cultura brasileira.

Leia abaixo a íntegra da entrevista com Varley Costa.

Quais são as características essenciais de um craque de futebol? O que Neymar, Messi e Cristiano Ronaldo têm que outros jogadores não têm?

Os craques têm um conjunto de capacidades genéticas, físicas, técnicas, táticas e psicológicas que os diferencia da grande maioria dos outros atletas. No futebol moderno, do ponto de vista físico, o atleta precisa ter força e velocidade. Em relação às capacidades técnicas, atletas como os citados acima têm um excelente domínio de todos os fundamentos do futebol (passe, drible, finalização condução de bola, etc) e, principalmente, tomam as melhores decisões táticas durante o jogo, sejam elas ofensivas ou defensivas. Psicologicamente, são atletas que lidam bem o com o estresse e a cobrança; são resilientes e motivados intrinsecamente para o alcance e superação de metas esportivas.

O diferencial é que as crianças brasileiras respiram futebol”

É possível formar um craque? Em outras palavras, ensinar um jogador “comum” a jogar como um craque? Ou é algo genético, de nascença, que apenas alguns jogadores têm “por natureza”?

Bem, o que faz o craque é uma junção de características genéticas e oportunidades ambientais. Quando falamos de características genéticas, estamos nos referindo a um conjunto de genes que os diferem dos demais atletas; porém, só isto não é suficiente. Os craques normalmente carregam ricas experiências ambientais, como jogar futebol na rua, brincar de bola na infância, apoio familiar e acesso a bons treinadores e boa estrutura nos clubes de formação. Imagine, por exemplo, se o Neymar, com todo o seu potencial genético, tivesse nascido em um país como a Finlândia; será que ele teria tido condições de desenvolver todo o seu potencial como jogador? Provavelmente não, pois teria perdido todas as oportunidades e facilidades que estão relacionadas à estimulação ambiental no Brasil, como poder jogar bola na rua, jogar bola durante o ano todo, ter um nível de companheiros que exigem dele o desenvolvimento pleno do seu futebol, etc.

Dito isso, por que o Brasil é essa “fábrica de craques”, tão invejada no resto do mundo? O que o Brasil tem de diferente nesse sentido?

O principal diferencial é que as crianças brasileiras “respiram futebol”. Ainda existem locais aqui onde as crianças com potencial genético para a modalidade brincam o dia inteiro de futebol e desenvolvem suas habilidades técnicas, depois são levadas aos clubes de formação, onde são orientadas por bons treinadores e acabam lapidando todo o seu talento esportivo. Independentemente de onde estiver e da sua classe social, no Brasil você sempre vai ver um garotinho brincando com uma bola e desenvolvendo habilidades técnicas que são necessárias para um craque. Somos um país continental e multirracial — isso também contribui muito para um processo mais eclético de formação de craques. Já perceberam que temos vários padrões físicos de craques — Pelé, Garricha, Zico, Romário, Ronaldo, Ronaldinho, Neymar? Também cabe reforçar que não exportamos somente atacantes, mas também, goleiros, zagueiros, meio campistas, laterais.

O futebol brasileiro tem sérios problemas de gestão”

Essa fábrica está perdendo força? Fomos mal nas últimas três Copas e a seleção hoje é bastante dependente do Neymar. O Campeonato Brasileiro também perdeu bastante brilho nos últimos anos …

Não vejo desta forma. A seleção montada pelo Tite tem grandes craques em várias posições, como Alisson (no gol), Miranda (na zaga), Marcelo (na lateral esquerda), Casemiro (volante), Douglas Coutinho (no meio campo), Gabriel Jesus (no ataque). Penso que o futebol brasileiro tem sérios problemas de gestão. Somos ainda amadores em várias esferas administrativas. Apesar de termos avançado em alguns pontos, os clubes, as federações e todos os agentes ligados ao futebol precisam se profissionalizar ainda mais para termos campeonatos mais atrativos e rentáveis, e que permitam a manutenção por um tempo maior de nossos craques no país.

Quando a Alemanha venceu a Copa de 2014 — atropelando o Brasil por 7×1 no meio do caminho — falou-se muito da escola alemã de futebol, e da vitória da tática e da disciplina sobre o “futebol arte” do Brasil. Esse futebol arte ainda existe?  Como resgatar isso?

A derrota de 7×1 para os alemães ficará marcada na história do futebol brasileiro. Ela desencadeou uma série de processos, em que começamos a discutir de forma mais séria não somente aspectos técnicos, táticos, físicos e psicológicos da performance dos jogadores, mas também aspectos administrativos e de gestão do futebol brasileiro. As duas coisas estão ligadas; não se ganha dentro de campo se fora dele as coisas estão desorganizadas e mal planejadas. Respeito muito o modelo de formação de atletas do futebol alemão, mas não vejo ele como superior ao nosso. A escola brasileira é a mais vitoriosa do futebol mundial e a que revelou o maior número de craques para o mundo. Porém, reconheço que podemos aprender e evoluir com outros exemplos de sucesso, de escolas futebolísticas como as da Alemanha, Itália, França, Inglaterra, Espanha, Argentina. É difícil o futebol brasileiro perder a sua “arte”, mas podemos, sim, ter uma maior escassez de craques se não cuidarmos bem do nosso futebol dentro e fora de campo. Do ponto de vista prático, sempre teremos um “novo Neymar” sendo revelado nos campos do Brasil. Digo isto por um único motivo: o futebol está no DNA do brasileiro.

O futebol está no DNA do brasileiro”