Recifes profundos são biologicamente distintos e estão igualmente ameaçados, alertam cientistas

Recifes profundos são biologicamente distintos e estão igualmente ameaçados, alertam cientistas

Pesquisadores brasileiros mergulharam fundo para desfazer um mito: Contrariando tudo o que se pensava até agora, os recifes de coral de águas mais profundas não estão mais protegidos nem servem como 'peças de reposição' para os ecossistemas de águas mais rasas

Herton Escobar

20 Julho 2018 | 07h00

Pesquisador em recife mesofótico de Pohnpei, na Micronésia. Foto: Luiz Rocha/California Academy of Sciences

Aquela que seria a última opção de resgate para os recifes de coral ameaçados do mundo acaba de ir por água abaixo. Contrariando o que se pensava até agora, os recifes de águas mais profundas — chamados mesofóticos, por estarem numa região de transição entre a luz e a escuridão, entre 30 e 150 metros de profundidade — não são iguais aos de águas rasas nem estão alheios às ameaças da superfície. Portanto, não contem com eles para resgatar ninguém da extinção; porque eles também precisam de ajuda.

Essa é a dura realidade trazida à tona hoje por um grupo de cientistas da Academia de Ciências da Califórnia, incluindo dois biólogos brasileiros, que passaram centenas de horas debaixo d’água pesquisando a biodiversidade desses recifes mesofóticos em várias partes do mundo. O que eles observaram é muito animador do ponto de vista científico, porém desalentador do ponto de vista da conservação. 

Imaginava-se, com base em inferências e registros pontuais passados, que a composição faunística dos recifes mesofóticos era muito semelhante à dos recifes de águas rasas; e que, graças à profundidade, eles estariam mais protegidos da pesca, da poluição e outros fatores que ameaçam os recifes de coral ao redor do mundo. Dessa forma, em última instância, eles funcionariam como um refúgio de biodiversidade — uma espécie de “cópia de segurança” que, em última instância, forneceria as “peças de reposição” necessárias para repovoar os recifes degradados mais acima.

Só que não. O levantamento in situ feito pelos pesquisadores mostra que a biodiversidade dos recifes mesofóticos é quase que totalmente distinta dos recifes rasos (a sobreposição, no caso dos peixes, é de apenas 5%, e menor ainda no caso dos corais), e que ele sofrem dos mesmos problemas de seus vizinhos do andar de cima, incluindo pesca predatória, contaminação por plásticos e outros poluentes, sedimentação, aquecimento e acidificação da água do mar. 

“Temos que abandonar a ideia de que os recifes profundos podem oferecer refúgio aos recifes rasos”, disse ao Estado o pesquisador Luiz Rocha, curador de peixes da instituição californiana e autor principal do trabalho, publicado hoje na revista Science. “A situação dos recifes rasos é pior do que se imaginava, e a urgência de agir para protegê-los é ainda maior do que se pensava.”

“A comunidade desses ambientes profundos é completamente distinta. Quanto mais fundo você vai, mais diferente fica”, diz o biólogo capixaba Hudson Pinheiro, pesquisador associado à Academia de Ciências da Califórnia, à Universidade Federal do Espírito Santo e parceiro de Rocha nos mergulhos que fundamentaram o trabalho. Eles pertencem a um seleto grupo de cientistas ao redor do mundo capacitados a mergulhar e pesquisas nessas grandes profundidades — uma atividade de alto risco, que exige técnicas e equipamentos especiais.

Juntos, eles contaram e identificaram mais de 50 mil peixes, em mais de 100 mergulhos, realizados entre 2014 e 2016, em várias localidades do Oceano Atlântico (nas Ilhas Bermudas e Curaçao) e do Oceano Pacífico (nas Filipinas e na Micronésia), comparando recifes rasos e mesofóticos, até 150 metros de profundidade. 

E isso foi só começo. Desde então eles já mergulharam em vários outros pontos importantes, incluindo a Ilha de Trindade e o Arquipélago de São Pedro e São Paulo, no Brasil (recentemente transformadas em áreas protegidas marinhas), em parceria com outros cientistas-mergulhadores brasileiros. E o cenário encontrado foi essencialmente o mesmo, tanto na variabilidade de espécies quanto nas ameaças que esses ecossistemas enfrentam.

“Acho que a experiência mais chocante que tive foi chegar a esses locais onde ninguém nunca foi e encontrar lixo em quase 100% deles — plástico, latas, redes de pesca”, conta Rocha. “Mesmo nessas profundidades pouco exploradas, os impactos humanos são óbvios.”

A única coisa que parece realmente servir como refúgio para os recifes de coral, segundo os pesquisadores, é estar o mais isolado possível do homem, tanto no fundo quanto no raso. “O grau de preservação do ambiente não está tão relacionado com a profundidade, mas com a distância dos seres humanos”, diz Pinheiro. “Se o raso estiver detonado, o fundo provavelmente vai estar também.”

Recifes rasos das Ilhas Marshall: cada profundidade tem sua biodiversidade específica. Foto: Luiz Rocha/California Academy of Sciences

Realidade brasileira

As implicações disso tudo para a biodiversidade marinha brasileira são enormes, dizem os pesquisadores. Por conta de sua extensa plataforma continental, o Brasil é um dos países com a maior quantidade e diversidade de ecossistemas mesofóticos no mundo; e a grande maioria desses ambientes foi muito pouco ou nada explorada cientificamente até agora, ressalta Pinheiro. Os cientistas temem que muita dessa biodiversidade seja perdida antes mesmo de ser conhecida.

+ Veja a reportagem especial: Recifes em Risco

O mais famoso desses recifes mesofóticos brasileiros atualmente é o da foz do Amazonas, cuja extensão e configuração só vem sendo revelada nos últimos dois anos, e cuja conservação está em conflito com iniciativas de exploração de petróleo e gás na região.

“Os resultados dessa pesquisa mostram claramente a necessidade de medidas específicas para a conservação de recifes profundos, que até agora eram considerados imunes às mudanças climáticas e aos impactos antrópicos locais”, diz o biólogo Ronaldo Francini Filho, professor da Universidade Federal da Paraíba, que pesquisa os recifes do Amazonas.

Lixo a 110 metros de profundidade, no Arquipélago de São Pedro e São Paulo. Foto: Luiz Rocha/California Academy of Sciences

A exploração científica desses ambientes deverá acrescentar muitos nomes ao catálogo de biodiversidade marinha brasileira, que atualmente conta com 733 espécies de peixes, das quais 111 (27%) são endêmicas (ou seja, só existem no Brasil) e 78 estão ameaçadas de extinção, segundo a lista mais recente elaborada por um grupo de pesquisadores nacionais, publicada na revista Diversity and Distributions.

Isso confirma o Brasil como o segundo maior centro de biodiversidade marinha do Atlântico, depois do Caribe (que tem cerca de 1 mil espécies de peixes).

A lista anterior, de 2008, tinha apenas 470 espécies, o que mostra a evolução da ciência brasileira nessa área. O novo trabalho, além de ampliar significativamente o número de registros, mostra que essa biodiversidade está concentrada na costa central do país, entre a Bahia e o Espírito Santo — onde fica o Banco dos Abrolhos, que abriga o maior ecossistema recifal do Brasil, incluindo recifes rasos e mesofóticos.

“Quanto mais a gente explorar, com certeza mais espécies vão aparecer”, comemora Pinheiro.