ALEX SILVA / ESTADÃO
ALEX SILVA / ESTADÃO

Avenida Paulista vira endereço da ciência

Após protesto contra a falta de recursos, pesquisadores montam uma espécie de feirinha de ciências na avenida para responder perguntas do público sobre questões tão diversas quanto aquecimento global e funcionamento de vacinas

Luiz Fernando Toledo e Herton Escobar, O Estado de S.Paulo

08 Julho 2018 | 23h20

SÃO PAULO - As vacinas funcionam mesmo? Existe mais de um universo? O aquecimento global é real? Que tal fazer todas essas perguntas a um cientista? Essa foi a proposta do Ciência na Paulista, que reúne cinco pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) dispostos a tirar dúvidas da população por cerca de duas horas.  Esta foi a segunda edição do evento, que aconteceu em comemoração aos 70 anos da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e ao Dia Nacional da Ciência neste domingo, 8, na Avenida Paulista, região central de São Paulo.

"A ideia surgiu de uma frustração de perceber que a ciência vem sendo ignorada pela população e, por consequência, por políticos, que sempre cortam verba primeiro nessa área", reclamou o aluno de Farmácia Bioquímica da USP e um dos organizadores do evento Renan Araújo. Ele e outros colegas da instituição de ensino se conheceram durante um evento de divulgação científica e conceberam o projeto para aproximar os cidadãos do saber científico. O grupo, chamado Via Saber, é uma iniciativa estudantil cujo objetivo é "fortalecer o diálogo entre comunidade científiuca e sociedade".

"Há pesquisas que apontam que o brasileiro gosta muito de ciência e sabe do seu valor, mas sequer sabe que existem cientistas brasileiros", comenta. Na primeira edição do evento, em junho, cerca de 200 pessoas participaram das conversas. O evento teve apoio institucional e financeiro do Instituto de Física da USP.

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Nesta edição, os participantes tiveram a oportunidade de saber mais sobre o aquecimento global, câncer, tecnologias digitais, viagem no tempo e outros temas. “É um tipo de atividade que deveria acontecer todos os dias, porque hoje se fala muita besteira. Há muita desinformação por aí. Pesquisas mostram que maioria se informa pelas redes sociais”, diz a bióloga Vânia Pivello, professora titular no Departamento de Ecologia da USP.

Para ela, a figura do cientista isolado em um laboratório ficou no passado, e é cada vez mais necessário dialogar com a população. “Hoje o cientista quer se mostrar útil, quer fazer algo que pague o seu salário. Muita gente não sabe o que fazemos e acha que só ficamos usando dinheiro público dentro da universidade.  É preciso mostrar a nossa utilidade, dar assessoria, informar. Vejo isso como uma obrigação” diz.

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A publicitária Alessandra Volkweis, de 34 anos, elogiou a ação. “Há muitos boatos hoje sobre vacinas e a sua importância. É bom que as pessoas possam falar de perto com um cientista. Eu mesma tirei dúvidas sobre agrotóxicos e medicina alternativa”, conta.  Já a estudante de Física Gabriela Maia, de 19 anos, aproveitou a oportunidade para tirar dúvidas de sua área com uma especialista. “Muitos acham que a ciência está longe da sociedade. É importante que as pessoas tenham essa aproximação”, conta. 

A veterinária Mitza Prazo, de 43 anos, que veio de Aracaju, aproveitou a visita a São Paulo para levar o filho João Guilherme, de 8 anos, para conversar com os cientistas. “Sempre tento trocar ideias com o meu filho sobre ciência e achei importante." O menino foi logo conversar sobre realidade virtual, em uma das mesas que oferecia até óculos de realidade aumentada para falar do tema. Uma das perguntas abordadas é sobre se existe vício digital. “Ele é viciado em computação.  Essa geração já chegou mexendo nessas tecnologias, precisamos nos adaptar”.

Protesto

Mais cedo, dezenas de cientistas, professores e universitários participaram de um ato na Paulista, em comemoração ao Dia Nacional da Ciência e em protesto contra a redução dos investimentos públicos no setor. O grupo caminhou por cerca de uma hora na avenida, levando faixas e guiados por bonecos carnavalescos do físico Albert Einstein e do geógrafo brasileiro Aziz Ab’Saber, um dos ícones da ciência nacional, morto em 2012. Houve manifestações também no Rio, Belo Horizonte e Recife.

“A situação é extremamente crítica”, disse ao Estado o físico Ildeu Moreira, presidente da SBPC. O orçamento do Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações hoje é metade do que era cinco anos atrás, e parte dele ainda está contingenciada. A passeata, segundo ele, representava tanto uma atitude de “resistência ao desmonte” quanto um esforço para avançar no diálogo com o Congresso e o governo federal — lembrando que o orçamento de 2019 está sendo definido agora.

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Vários dos participantes reconheceram que houve pouca divulgação e que o número de manifestantes era pequeno — quase não dava para notar a passeata em meio ao público de domingo na Paulista. Ainda assim, cobraram um maior engajamento da comunidade científica; especialmente dos estudantes, minoria na avenida. “O efeito mais devastador disso tudo é o desânimos dos jovens”, lamentou Moreira.

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A pesquisadora Karina Bortoluci, do Departamento de Ciências Biológicas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), disse que a comunidade científica precisa fazer um “mea culpa” e reconhecer que é preciso se comunicar mais e melhor com a população. “As pessoas entendem muito pouco a relevância da ciência”, disse. “Temos de ter ações mais rotineiras de comunicação com a sociedade, além dessas manifestações pontuais.”

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