EFE/Alex Hofford
EFE/Alex Hofford

Cientista chinês que modificou genes de bebês anuncia pausa na pesquisa

Caso levou a críticas da comunidade científica internacional . He Jiankui alterou DNA de gêmeas para torná-las resistentes ao vírus do HIV

O Estado de S.Paulo

29 Novembro 2018 | 00h17

HONG KONG - O cientista chinês que afirma ter criado os primeiros bebês modificados geneticamente da história anunciou nesta quarta-feira, 28, uma “pausa” nos testes clínicos após a polêmica mundial em torno do caso. Em uma conferência médica que ocorreu nesta quarta em Hong Kong, He Jiankui reiterou que havia permitido o nascimento das gêmeas cujo DNA foi modificado para torná-las resistentes ao vírus do HIV.

Ele também explicou oito casais - todos formados por um pai soropositivo e uma mãe soronegativa - haviam se voluntariado para os testes, mas que um deles desistiu. “Peço desculpas porque o resultado vazou de maneira inesperada”, disse Jiankui em referência aos vídeos publicados no domingo passado no Youtube, nos quais anunciou o nascimento das gêmeas chamadas Lulu e Nana.

“Uma pausa foi dada nos testes clínicos devido à atual situação”, acrescentou o cientista, que dirige um laboratório em Shenzhen.

O anúncio desses nascimentos foi alvo de duras críticas em todo o mundo por ser considerado “loucura” por inúmeros pesquisadores. Na comunidade científica, muitos denunciaram a falta de verificação independente ou o fato de haver exposto os embriões saudáveis a modificações genéticas.

Especialistas consideram que tais modificações poderiam gerar mutações não desejadas em áreas diferentes das que foram alteradas. Mas He defendeu seu trabalho nesta quarta na tribuna do evento e disse que os pais voluntários estavam perfeitamente cientes dos riscos e dos efeitos secundários e “decidiram pela implementação”. Afirmou também que a Universidade de Ciências e Tecnologia do Sul, na cidade de Shenzen, onde trabalha, não havia sido informada dos testes.

O próprio centro se distanciou previamente do pesquisador ao afirmar que desde fevereiro ele estava afastado e sem remuneração, dizendo estar “profundamente impactado”. Os organizadores da conferência também disseram que não tinham conhecimento das investigações de He.

O moderador da mesa redonda Robin Lovell-Badge declarou acreditar que os testes representar “um passo atrás” para a comunidade científica. “É um exemplo de abordagem que não foi suficientemente prudente”, afirmou. “É óbvio que se trata de algo histórico. Esses bebês seriam os dois primeiros a serem geneticamente modificados. É um momento capital da história”, acrescentou .

O presidente da conferência, o biólogo David Baltimore, ganhador do prêmio Nobel, denunciou a falta “de autorregulação da comunidade científica devido à falta de transparência”.

O geneticista, formado pela universidade americana de Stanford, disse ter sido empregado a técnica CRISPR/Cas9, conhecida como as “tesouras do genoma”, que permite substituir partes indesejáveis do genoma como se corrigisse um erro de digitação em um computador.

As gêmeas nasceram, segundo ele, a partir de uma fecundação in vitro a partir de embriões modificados antes de ser implantados no útero da mãe. Essa técnica abre perspectivas no âmbito das enfermidades hereditárias. Porém é muito controversa porque as modificações realizadas seriam transmitidas a gerações futuras e poderiam afetar o conjunto do patrimônio genético.

O pesquisador americano de origem chinesa Feng Zhang, que reivindica a paternidade do CRISPR/CAS9, considerou perigoso e desnecessário o experimento de HE. “Essa experiência não deveria ter ocorrido. O que foi feito não é científico”, disse.

O vice-ministro chinês de Ciências e Tecnologia, Xu Nanping, disse que se as gêmeas estão vivas é algo ilegal. Segundo os princípios éticos definidos em 2003 sobre as pesquisas com células-tronco em embriões, o cultivo in vitro somente era possível por 14 dias após a fertilização ou o transplante do núcleo.

Segundo Qiu Renzong, pioneiro de questões bioéticas na China, os pesquisadores chineses frequentemente escapam das sanções já que só têm de prestar contas a suas instituições. E algumas não preveem sanções em caso de falta profissional. A China quer se converter em líder da investigação genética e da clonagem, mas as zonas cinzentas da legislação do país têm permitido experimentos às vezes controversos. /AFP

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