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Cientistas Harvey J. Alter, Michael Houghton e Charles M. Rice foram laureados na manhã desta segunda, 5. Jonathan Nackstrand/AFP

Nobel de Medicina vai para trio de pesquisadores que descobriu o vírus da hepatite C

Cientistas Harvey J. Alter, Michael Houghton e Charles M. Rice foram laureados na manhã desta segunda, 5. Doença provoca 400 mil mortes por ano

Roberta Jansen e Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2020 | 06h37
Atualizado 09 de outubro de 2020 | 12h23

Harvey J. Alter, Michael Houghton e Charles M. Rice foram laureados na manhã desta segunda-feira, 5, com o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina, pelas descobertas que levaram à identificação do vírus da hepatite C, responsável por 70 milhões de novos casos e 400 mil mortes anualmente. De acordo com o Comitê do Nobel, os três pesquisadores fizeram contribuições decisivas para a luta contra a doença transmitida pelo sangue, “um enorme problema global de saúde que causa cirrose e câncer de fígado”.

Antes do trabalho dos três pesquisadores, a descoberta dos vírus da hepatite A e B já tinha sido um passo importante, mas a maioria dos casos de hepatite transmitida pelo sangue permanecia sem explicação. Segundo o comitê, a descoberta do vírus da hepatite C revelou a causa dos casos restantes de hepatite crônica e possibilitou exames de sangue e novos medicamentos que salvaram milhões de vidas.

A partir dessa descoberta, hoje “testes de sangue altamente sensíveis para o vírus estão disponíveis e essencialmente eliminaram a hepatite transmitida em transfusões de sangue em muitas partes do mundo, melhorando significativamente a saúde global”, informou o comitê. 

“A descoberta também permitiu o rápido desenvolvimento de medicamentos antivirais direcionados à hepatite C. Pela primeira vez na história, a doença agora pode ser curada, aumentando as esperanças de erradicar o vírus da hepatite C da população mundial”, continuou o grupo. Mas para atingir esse objetivo, salientam, serão necessários esforços internacionais para facilitar os exames de sangue e disponibilizar medicamentos antivirais em todo o mundo. 

Hepatite - uma ameaça global à saúde humana

A inflamação do fígado, ou hepatite, a combinação das palavras gregas para fígado e inflamação, é causada primariamente por infecções virais, embora o abuso de álcool, toxinas ambientais e doenças autoimunes sejam também causas importantes. Nos anos 40, ficou claro que havia pelo menos dois tipos principais de hepatite infecciosa.

O primeiro, hepatite A, é transmitido por água poluída ou alimentos e geralmente tem pouco impacto a longo prazo no paciente.

O segundo tipo, a hepatite B é transmitido pelo sangue e fluidos corporais e representa uma ameaça muito mais séria, pois pode levar a uma condição crônica, com o posterior desenvolvimento de cirrose e câncer de fígado. Esta forma de hepatite é insidiosa, porque indivíduos saudáveis podem estar infectados por muitos anos antes de apresentarem complicações sérias. Hepatites transmitidas pelo sangue são associadas a uma significativa morbidade e mortalidade, e causam mais de um milhão de mortes por ano - tornando-a uma ameaça à saúde comparável à da infecção pelo HIV e à tuberculose.

A chave para uma intervenção bem sucedida contra doenças infecciosas é identificar o agente causador. Nos anos 60, Baruch Blumberg determinou que uma forma de hepatite de transmissão sanguínea era causada por um vírus queu ficou conhecido como vírus da hepatite B. A descoberta levou ao desenvolvimento de testes de diagnóstico e a uma vacina eficaz. Blumberg recebeu o Prêmio Nobel de Medicina em 1976 por essa descoberta.

Nesta época, Harvey J. Alter trabalhava no Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, estudando a ocorrência de hepatite em pacientes que tinham recebido transfusão de sangue. Embora os testes de diagnóstico para o recém-descoberto vírus da hepatite B tivessem reduzido o número de casos da doença relacionados a transfusões, Alter e seus colegas demonstraram que um grande número de casos continuavam ocorrendo. Testes para a hepatite A também foram desenvolvidos nesta época e ficou claro que o vírus A tampouco era o responsável por esses casos sem explicação.

Causava grande preocupação que um número significativo de pessoas que recebiam transfusão de sangue desenvolvessem hepatite crônica por conta de um agente infeccioso desconhecido. Alter e seus colegas conseguiram demonstrar que o sangue desses pacientes com hepatite era capaz de transmitir a doença para chimpanzés - o único hospedeiro suscetível ao vírus além dos humanos.

Estudos subsequentes também demonstraram que o agente infeccioso desconhecido tinha características de um vírus. As investigações metódicas de Alter conseguiram determinar uma nova e distinta forma de hepatite viral crônica. A doença misteriosa passou a ser conhecida como hepatite não-A e não-B.

A essa altura, a identificação do novo vírus era a grande prioridade. Todas as técnicas tradicionais de isolar um vírus foram tentadas, mas, a despeito disso, mais de dez anos se passaram sem que ninguém conseguisse. Michael Houghton, trabalhando para a indústria farmacêutica Chiron, tomou para si a tarefa de isolar a sequência genética do vírus. Houghton e seus colegas criaram uma coleção de fragmentos de DNA encontrados no sangue de um chimpanzé infectado. A maioria dos fragmentos vinha do genoma do próprio macaco, mas os pesquisadores inferiram que algumas sequências deveriam ser do vírus desconhecido.

Os cientistas sabiam que os anticorpos contra o vírus estariam presentes no sangue de pacientes que tinham hepatite. Por isso, buscaram identificar fragmentos de DNA viral clonados que codificavam as proteínas virais. Depois de uma longa pesquisa, um clone positivo foi encontrado. Trabalhos posteriores demonstraram que esse clone era de um novo vírus pertencente à família dos flavivírus e foi chamado de vírus da hepatite C.

A descoberta do vírus da hepatite C foi decisiva, mas uma peça essencial do quebra-cabeças ainda estava faltando: o vírus seria o único responsável pela hepatite? Para responder a essa questão, os cientistas tinham de demonstrar que o vírus isolado era capaz de se replicar e causar a doença. 

Charles M. Rice, pesquisador da Universidade de Washington, em St. Louis, juntamente com outros colegas que trabalhavam com vírus RNA, percebeu que havia uma região ainda não devidamente caracterizada no genoma do vírus que seria importante na replicação viral. Seu grupo também conseguiu determinar que quando esse RNA era injetado no fígado de chimpanzés, o vírus aparecia no sangue, bem como alterações patológicas similares àquelas observadas em seres humanos com a doença. Esta foi a prova final de que o vírus era o único responsável pelos casos inexplicados de hepatite transmitida por meio de transfusão de sangue.

Quem são os vencedores de 2020

Harvey J. Alter nasceu em 1935 em Nova York. Ele se formou em Medicina pela Escola de Medicina da Universidade de Rochester. Em 1961, ele ingressou nos Institutos Nacionais de Saúde (NIH). Ele também passou vários anos na Georgetown University antes de retornar as NIH em 1969 para ingressar no Departamento de Medicina de Transfusão do Centro Clínico como pesquisador sênior.

Michael Houghton nasceu no Reino Unido. Ele recebeu seu PhD em 1977 pelo King’s College London. Ele se mudou para a Universidade de Alberta em 2010 e atualmente é professor de virologia da universidade, onde também é diretor do Instituto de Virologia Aplicada.

Charles M. Rice nasceu em 1952 em Sacramento. Ele recebeu seu PhD em 1981 do Instituto de Tecnologia da Califórnia. Ele estabeleceu seu grupo de pesquisa na Escola de Medicina da Universidade de Washington, em St Louis, em 1986, e tornou-se professor titular em 1995. Desde 2001, ele é professor na Universidade Rockefeller, em Nova York. Durante 2001-2018,  foi o diretor-científico e executivo do Centro para o Estudo da Hepatite C na Universidade Rockefeller, onde permanece ativo.

Saiba quem foram os premiados em anos anteriores

Nobel de Medicina 2019: William Kaelin e Gregg Semenza, dos Estados Unidos, e Peter Ratcliffe, do Reino Unido

Receberam o prêmio por suas pesquisas sobre os mecanismos que fazem com que as células se adaptem à disponibilidade de oxigênio no corpo. As descobertas têm uma importância fundamental para a fisiologia e o combate à anemia e ao câncer, por exemplo.

Nobel de Medicina 2018: James P. Allison, dos Estados Unidos, e Tasuku Honjo, do Japão

Receberam o prêmio por suas pesquisas sobre o uso da imunoterapia no tratamento de cânceres agressivos. Eles identificaram como estimular o sistema imunológico a atuar contra as células cancerígenas.

Nobel de Medicina 2017: Jeffrey Hall, Michael Rosbash e Michael Young, dos Estados Unidos

O trio fez descobertas sobre o relógio biológico, explicando como plantas, animais e humanos sincronizam seu ciclo biológico à rotação do planeta.

Nobel de Medicina 2016: Yoshinori Ohsumi, do Japão

Foi reconhecido por suas investigações sobre a autofagia, mecanismo que ajuda a compreender o processo de renovação das células e respostas do corpo a infecções.

Nobel de Medicina 2015: William C. Campbell, da Irlanda, Satoshi Omura, do Japão, e Youyou Tu, da China

A equipe desenvolveu tratamentos contra infecções causadas por parasitas e contra a malária.

Sobre o Prêmio Nobel

Cada um dos vencedores dos prêmios deste ano, anunciados entre 5 e 12 de outubro, receberá um cheque de dez milhões de coroas suecas (aproximadamente R$ 6,2 milhões) - um valor que não era pago há dez anos. Em 2011, a Fundação Nobel reduziu o valor do prêmio de dez milhões para oito milhões de coroas suecas. Em 2017, a instituição aumentou o valor para nove milhões. Somente este ano voltará ao valor original.

A Fundação Nobel administra os bens de Alfred Nobel, que deixou a maior parte de sua fortuna para a criação do prêmio com o seu nome em testamento feito em Paris, em 1895. Nobel inventou a dinamite em 1866, criação que o tornou rico.  A fundação concede os prêmios de medicina, física, química, economia, literatura e paz.

Pela primeira vez desde 1944, a cerimônia de premiação física em 10 de dezembro foi cancelada, devido à pandemia de covid-19, e substituída por um evento on-line, no qual os laureados receberão os prêmios em seu país de residência. Uma cerimônia ainda está marcada em Oslo para o Prêmio da Paz, mas reduzida ao mínimo.

O tradicional banquete dos prêmios Nobel, celebrado todo ano em dezembro em Estocolmo, na Suécia, também foi cancelado. O banquete do Nobel foi cancelado anteriormente durante as duas guerras mundiais. Também não ocorreu em 1907, 1924 e 1956.

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Nobel de Medicina chama atenção para a hepatite C no mundo; Brasil tem 700 mil diagnosticados

Prêmio foi concedido nesta segunda-feira aos descobridores do vírus. Apesar do avanço no diagnóstico e tratamento, ainda há obstáculos para a erradicação da doença que mata mais de 400 mil pessoas por ano

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2020 | 17h49

O prêmio Nobel de Medicina concedido aos descobridores do vírus da hepatite C revela os grandes avanços feitos no diagnóstico e tratamento da infecção nos últimos 30 anos, mas também os obstáculos que ainda existem para a erradicação da doença até 2030, de acordo com a meta da Organização Mundial de Saúde (OMS).

São pelo menos 70 milhões de casos hoje no mundo, com mais 400 mil mortes por ano, segundo a OMS. No Brasil, cerca de 700 mil pessoas vivem com hepatite C. De acordo com o último boletim, foram 27.773 mil novos casos e 1574 mortes em 2018. As regiões mais atingidas do planeta são Europa Oriental, Egito, Índia e partes da Ásia. A hepatite C ainda é a principal responsável pelos casos de cirrose e câncer de fígado, que podem levar à necessidade de um transplante.

Os pesquisadores americanos Harvey J. Alter e Charles M. Rice e o britânico Michael Houghton foram os laureados com o Nobel de Medicina por suas descobertas que levaram ao desenvolvimento de drogas capazes de curar a doença em 99% dos casos.

"Pela primeira vez na história, a doença pode ser curada, aumentando as chances de erradicação do vírus da hepatite C no mundo", justificou o comitê do Nobel, ao anunciar o prêmio em Estocolmo.

O grande desafio agora é fazer com que os remédios se tornem disponíveis para todos a um custo mais baixo que o atual, evitando a disseminação viral que ainda ocorre sobretudo entre usuários de drogas injetáveis. No Brasil, o remédio é distribuído pelo Sistema Único de Saúde (SUS) gratuitamente.

"O que precisamos agora é da vontade política de erradicar a doença", afirmou Alter, depois de saber que havia sido laureado.

Outro grande desafio é a subnotificação. Muitas vezes, a infecção no fígado leva até 30 anos para manifestar os primeiros sintomas (por isso é chamada de 'doença silenciosa') e as pessoas não sabem que estão infectadas. Não diagnosticada e não tratada a doença evolui perigosamente para a cirrose e o câncer de fígado.

Os cientistas já conheciam os vírus da hepatite A e B, mas apenas em 1989 o grupo de Alter conseguiu identificar o vírus da hepatite C.

"Hoje, tomamos como certo que se recebermos uma transfusão de sangue, não vamos ficar doentes", afirmou Rice. "Mas não era assim antes de podermos testar todos os estoques de sangue."

Atualmente é a única doença viral crônica que pode ser curada em praticamente todos os casos em apenas poucos meses de tratamento.

"Esse é um dos maiores casos de sucesso da medicina moderna", resumiu o infectologista Alexandre Naime Barbosa, chefe do setor de infectologia da Unesp. "Em pouco mais de 30 anos identificamos um agente não conhecido, isolamos o vírus, chegamos a um diagnóstico preciso e desenvolvemos um tratamento capaz de curar a doença em 99% dos casos."

No entanto, um dos maiores desafios da hepatite C é a subnotificação. Muitas vezes, a infecção no fígado leva até 20 anos para manifestar os primeiros sintomas e as pessoas não sabem que estão infectadas. Não diagnosticada e não tratada ela pode levar à cirrose e ao câncer de fígado -- principais causas de transplante.

Alter, de 85 anos, trabalhou durante décadas no Instituto Nacional de Saúde dos EUA e continua em atividade até hoje. Houghton, de 69 anos, trabalhou na farmacêutica Chiron, na Califórnia, antes de ir para a Universidade de Alberta, no Canadá. Rice, de 68 anos, trabalhou com hepatite na Universidade de Washington, em St. Louis e, atualmente, está na Universidade Rockefeller, em Nova York.

Alter foi o primeiro a descobrir que muitos pacientes que não apresentavam o vírus da hepatite A ou B também desenvolviam a inflamação no fígado. Por anos, no entanto, inferia-se que haveria um outro vírus, que eles chamavam de não-A e não-B, mas não se conseguia isolá-lo. Somente em 1989, o grupo de Houghton conseguiu isolar o vírus.

"Trabalho com hepatite desde os anos 80 e te digo que a gente apanhou, ela deu um baile na gente", afirmou o infectologista Celso Granato, da Escola Paulista de Medicina, referindo-se à dificuldade de isolar o vírus da hepatite. "Vi muita gente querendo rasgar o diploma."

Posteriormente, o grupo de Rice constatou que o vírus, de fato, era o responsável pela infecção e o desenvolvimento da doença em humanos, levando ao desenvolvimento de testes e tratamentos.

"Não vemos casos de transmissão de hepatite C pelo sangue desde 1997", disse Alter. "Atualmente, podemos curar virtualmente todo mundo que é diagnosticado. Com isso, é possível que consigamos erradicar a doença ainda na próxima década, como espera a OMS."

Alter e Rice estão trabalhando atualmente na pesquisa do coronavírus. Houghton tenta desenvolver uma vacina contra a hepatite C e espera começar os testes clínicos já no ano que vem, nos EUA, na Alemanha e na Itália.

Os três cientistas vão dividir o prêmio de dez milhões de coroas suecas (cerca de R$ 6,2 milhões). O prêmio de Medicina anunciado ontem, é o primeiro de seis que serão revelados ao longo desta semana. Os demais são física, química, literatura paz e economia.  

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