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Trauma craniano

Na época em que conviveram, humanos e neandertais levavam vidas cheias de riscos

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

01 Dezembro 2018 | 03h00

Desde pequeno, tenho fascinação pelo homem de Neandertal. Só imaginar que milênios atrás vivia entre nós outro animal quase igual aos humanos me deixava arrepiado. Na escola me contaram que eram mais atarracados, mais musculosos e mais agressivos que os humanos, seguramente não teriam alma como nós. 

Imaginava o medo do ser humano ao encontrar esse ser, que com uma clava na mão atacava nossos ancestrais indefesos, roubando crianças pequenas. Quando foi descoberto que nossos ancestrais faziam sexo e tiveram filhos com esse outro hominídeo, minha imaginação alçou novos voos. 

Outro dia uma criança me perguntou se esses bastardos teriam alma. Tudo isso era fruto da imaginação infantil. Na verdade, hoje se acredita que os homens contribuíram para a extinção dos neandertais, mais uma espécie vítima de nossa expansão.

Grande parte do nosso imaginário sobre neandertais deriva da descoberta de marcas e cicatrizes nos ossos dos primeiros crânios achados. Essas marcas indicavam que muitos desses animais levavam vida violenta, em que eram seriamente feridos, mas que sobreviviam, como indicavam os ossos regenerados. Foi daí que veio a ideia que provavelmente eram violentos.

Mas agora um grupo de cientistas resolveu investigar se essa conclusão, baseada nos primeiros esqueletos encontrados, corresponde à verdade. Para isso resolveram comparar os ossos de neandertais com os ossos de humanos que viviam na mesma época, ou seja, entre 80 e 20 mil anos atrás. E para que a comparação fosse estatisticamente significativa era preciso comparar o maior número possível de esqueletos. 

Assim, foram analisados esqueletos coletados pela Europa, Oriente Médio e Ásia. São desde ossos achados em Portugal, passando por ossos coletados pela Itália, França Alemanha, Israel e Rússia. No total, são 836 partes de esqueletos, fragmentos de ossos, crânios e fragmentos de crânios que foram desenterrados em 76 localidades. Para ser incluído no estudo só era necessário que os indivíduos tivessem vivido no Paleolítico Superior e pudessem ser claramente identificados como de neandertais ou de humanos.

Cada um desses ossos foi examinado para identificar marcas que indicassem fraturas, tanto as já cicatrizadas quanto as que pudessem ter levado à morte do indivíduo. Esses ossos pertenciam a 114 indivíduos neandertais e 90 humanos. Os resultados foram inesperados. De 295 ossos de crânios de neandertais, 14 tinham marcas de fraturas e dos 541 ossos de crânios humanos da mesma época, 25 apresentavam marcas de trauma. Só isso já mostra que humanos daquela época se machucavam tanto quanto neandertais. Analisando os dados com cuidado foi possível concluir que a prevalência de traumas em neandertais e humanos era praticamente idêntica, por volta de 4%. 

Usando só os esqueletos em que o sexo do indivíduo podia ser determinado, cientistas descobriram que os homens apresentavam mais sinais de traumas que as mulheres, mas também nesse caso os números eram iguais entre humanos e neandertais. A única pequena diferença entre os dois grupos foi a descoberta que entre jovens, representados por esqueletos menores, a taxa de lesão era um pouco maior entre neandertais, mas isso tem pouca significância estatística.

A conclusão é que na época em que conviveram, humanos e neandertais levavam vidas cheias de riscos, onde se machucavam muito, e que a taxas de traumas nas duas populações eram praticamente idênticas. Muitos acreditam que grande parte das lesões ocorria durante a caça de grandes animais, usando armas de curto alcance, como lanças e espadas, mas provavelmente também envolviam agressões entre grupos e dentro do próprio grupo. Para ambos, a vida campestre não era idílica.

Com base nesses resultados, é necessário mudar o que contamos aos alunos sobre os neandertais. O mais correto seria dizer que eles, apesar de mais encorpados que os humanos, experimentavam um nível de violência e trauma semelhante aos humanos que foram seus contemporâneos. 

Quem sabe não seriam os neandertais mais doces, pacíficos e amorosos que os humanos da época? Talvez tenham sido extintos exatamente por serem pouco agressivos. Será difícil mudar o que se fixou na minha imaginação, mas talvez as crianças de hoje possam imaginar neandertais pacíficos colhendo flores para a família enquanto temiam a aproximação de um humano.

MAIS INFORMAÇÕES: SIMILAR CRANIAL TRAUMA PREVALENCE AMONG NEANDERTHALS AND UPPER PALEOLITHIC MODERN HUMANS. NATURE. (2018)

*É BIÓLOGO

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